Quem, de fato, é nojento?

Quem, de fato, é nojento?

Mulher é investigada por injúria racial contra casal de SP em prédio de BH:

No último dia 28, um casal de São Paulo sofreu ataques racistas em um prédio no centro de Belo Horizonte. Eneida Aparecida Gusmão e Fábio dos Santos Bouças — a quem direciono minha total solidariedade — foram atacados por uma mulher que, ao ver o casal, cuspiu no chão e afirmou ter “nojo de preto”. O asco parece se confirmar quando nos deparamos com a história da agressora, que, em 2019, foi presa por injúria racial contra um taxista na região centro-sul de BH. Na ocasião, a mulher também cuspiu no chão e, com orgulho, disse: “eu não gosto de negro, sou racista mesmo”. O ódio às pessoas negras é o fio condutor desses dois episódios. Em seis anos, algo não mudou: a certeza de que a violência pública contra pessoas negras encontra eco e ancoragem em uma estrutura interessada em desautorizar nossas presenças, sobretudo nos espaços que não foram pensados para nós.

Quando vi as duas reportagens — anos atrás e agora, no final de 2025 — algo me saltou aos olhos: a latência do nojo. O que leva alguém a sentir asco de pessoas racializadas? O que faz com que um grupo inteiro de pessoas seja hostilizado por sua corporeidade? A resposta está na pedagogia da violência que estrutura o racismo: uma alteridade cujo fio condutor é o interesse pela execução, e não pela reciprocidade. Está claro que esse nojo, essa hostilidade e essa violência ressoam e se ancoram na lógica racial e racista que não apenas desenha a realidade social, política, econômica, geográfica e estética no Brasil, como também insiste em posicionar corpos racializados como desprezíveis quando, na verdade, nojentos são aqueles que se fiam em compreensões hierarquizantes e desumanizantes, montadas para constituir uma realidade profundamente brutal de continuidade de poder.É interessante perceber como a branquitude, enquanto modelo perverso de racionalidade e gestão política, ensina a odiar como estratégia sofisticada para não encarar a imoralidade daqueles que a alimentam e a regulam. Cida Bento (2022) destaca que as representações estereotipadas sobre a população negra compõem pactos, tácitos ou não, que regulam a realidade social a partir da humilhação pública de pessoas não brancas. Para Fanon, os negros são posicionados como “comparação” (2020, p. 220). Vale ressaltar que essa trama de alteridade e comparação é imposta por um modelo que constrange o negro, ao mesmo tempo em que se esquiva de sua própria imoralidade. O racismo não é uma monstruosidade; ele se manifesta na agência violenta de sujeitos que, ao ventilar as perversidades de uma estrutura, se sentem autorizados. Por fim, vale retornar à pergunta que dá título a esta reflexão: quem, de fato, é nojento?

 

Referências

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BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Sebastião Nascimento e Raquel Camargo; prefácio de Grada Kilomba; posfácio de Deivison Faustino. São Paulo: Ubu, 2020

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