Quem tem medo do corpo negro?

Quem tem medo do corpo negro?

Com frequência, ouvimos que nossos corpos são políticos. Essa é uma afirmação verdadeira, pois entendemos que no corpo estão inscritas as formas de poder que definem legitimidade e ilegitimidade, presença e ausência, no que diz respeito à humanidade. Há, sobre o corpo, uma disputa que evidencia seu caráter profundamente técnico e politicamente constituído.

Só há corpo nos vínculos políticos, históricos, simbólicos e normativos que, de maneira plural, possibilitam seu reconhecimento ou o situam, à margem da norma, como carne. É fundamental destacar a distância radical entre corpo e carne. O corpo possui estatuto político; nele se inscrevem os parâmetros de sentido que garantem acesso ao direito, à proteção e à não violência. A carne, em contraste, configura-se como o oposto do corpo: é consumida no interior das relações de poder, de modo a orquestrar uma geografia política entre centro e margem.

É importante compreender que as políticas discriminatórias, de forma conectada, fabricam a carne. O racismo antinegro, por exemplo, organiza os corpos a partir de um ideal hierarquizante, herdeiro de um arquivo colonial responsável por destituir a humanidade de sujeitos racializados, ao mesmo tempo em que confere à brancura o status de legitimidade. Assim, enquanto tecnologia do terror, o racismo antinegro se nutre de uma oposição radical entre o corpo “marcado” e o “sujeito” que enxerga a si mesmo à luz de teses humanistas excludentes que, longe de serem naturais, são compostas pela convergência de tecnologias que sequestram a dignidade de pessoas negras. Essa desarticulação é sofisticada e se manifesta no silenciamento das intelectualidades negras, na letalidade de presenças constituídas como carne, na marginalização sistêmica de seus saberes e produções culturais, bem como nas mais variadas formas de violação que se intensificam, a fim de naturalizar a brutalidade do racismo. Muito recentemente, fui pego de surpresa, por exemplo, diante de uma das propagandas oficiais do carnaval de Belo Horizonte (na TV e nas redes sociais): uma cidade majoritariamente negra, sem nenhum protagonismo negro. Será mesmo que não existem pessoas negras que também podem representar o carnaval numa cidade em que correspondem a 56,1% da população, segundo os dados mais recentes do IBGE1?

Para aqueles que não querem renunciar aos pactos, tácitos ou não, sustentados no apagamento das presenças, saberes e tecnologias negras, forjar a nossa invisibilização garante a continuidade do seu poder. Logo, retomamos a questão que dá título a esta reflexão: quem tem medo do corpo negro? Ora, todos aqueles que são denunciados por um corpo que, de forma política, rejeita a redução à carne e que, de forma disruptiva, não negocia a sua humanidade.

 

Referências

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1. IBGE. Censo Demográfico 2022: Belo Horizonte – resultados da amostra de identificação étnico-racial. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 22 dez. 2023. Disponível em: https://censo2022.ibge.gov.br. Acesso em 04 de fevereiro de 2026.

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