Precisamos refletir acerca do impacto das narrativas tóxicas sobre a vida das pessoas e a qualidade do meio ambiente de trabalho.
Ocorre que essas narrativas são, muitas vezes, tão carregadas de emoção e interesses não manifestos explicitamente, que se afastam dos fatos.
Seu teor e abordagem são organizados para valorizar uma perspectiva determinada, o que lhe confere parcialidade em algum nível, oferecendo um molde tendenciosamente recortado da realidade. Dito isso, fatos brutos não se confundem com narrativas.
No intento de influenciar pessoas e engajá-las em prol de objetivos não aparentes, as narrativas estabelecem conexões emocionais oportunistas imediatas, sustentando visões de mundo mais amplas (genéricas), crenças pessoais ou simplesmente opiniões rasas.
As narrativas estão presentes no cotidiano de nossas relações (especialmente no ambiente de trabalho) e podem atender ao propósito de manipular, vilanizar e excluir o outro (pessoa determinado grupo), criando “inimigos comuns”. Pois é, a reprodução acrítica de uma narrativa, em seus elementos essenciais, conferem uma aura de verdade.
Desta maneira, a apropriação e o controle das narrativas tornam-se fatores estratégicos, em razão da influência que o autor da narrativa exerce sobre o comportamento das pessoas de interesse, dinâmica que dá ensejo a verdadeiras bolhas informacionais e feudos.
As narrativas não apenas direcionam a condutas alinhadas a uma normatividade implícita. Também oportunizam a organização de grupos de afinidade, podendo resultar em polarização e tensões com motivações e níveis distintos.
Em alguns casos, as narrativas distorcem os fatos brutos de tal maneira que disseminam inverdades e desinformação. A sua velocidade de propagação reforça o quão o apelo emocional encanta as narrativas. Não sem razão, Byung-Chul Han ressalta que “(…) a informação não é mais informativa, mas deformadora; a comunicação não é mais comunicativa, mas meramente cumulativa” (Han, 2022, local.42).
O recorte desse texto são as narrativas tóxicas criadas no ambiente de trabalho na forma de histórias, impressões ou ideias persistentes, forjadas para formar alianças de interesse, ajustar comportamentos a um padrão conveniente e promover a exclusão de desafetos, desencadeando invisibilidade, isolamento institucional, competição predatória entre os pares e discriminação.
A competição não é motivada necessariamente por ganhos remuneratórios mas, por notoriedade, reconhecimento social, revide, disputas por atenção ou afetos (em um sentido alargado) e influência. Não visa algo concreto.
As organizações, independentemente da natureza ou finalidade, não são ambientes inertes aos afetos e emoções.
As narrativas tóxicas são impregnadas de estímulos negativos (raiva, rejeição, frustração, decepção, desdém, aversão, ressentimento etc.).
Podem ter como nascente o preconceito (misoginia, xenofobia regional, racismo, homofobia dentre outras modalidades).
Acuadas e desprestigiadas, as pessoas que protagonizam essas narrativas são afetadas de diferentes formas, ao ponto de provocar o seu adoecimento psíquico em um ritmo acelerado na medida em que as “histórias” se espalham, dando ensejo a rótulos diversos (pessoa “surtada”, “problemática”, “difícil”, “complicada”, “louca”, “depressiva”, “desatualizada”, “defasada”).
Por essa dinâmica extremamente cáustica, trajetórias profissionais são apagadas e pessoas são estigmatizadas, ao ponto de se verificar verdadeiras interdições a posições funcionais.
Nesses “tribunais” (ambientes de trabalho), profissionais competentes são lidos a partir de impressões negativas pontuais, compartilhadas e eternizadas.
É desnecessário pontuar o impacto dessa violência sobre a vida das pessoas que são alvo de tais narrativas, tornando o ambiente de trabalho inseguro. Sim, estamos falando sobre violência.
Ainda temos as narrativas justificadoras da exploração desmedida, que promovem o engajamento de trabalhadores e trabalhadoras para serem cada vez mais produtivos. O ponto aqui não a produtividade em si, mas o excesso que exaure, fazendo decair a qualidade de vida do(a) trabalhador(a).
Aliás, essas têm se revelado como as mais consistentes e eficazes, desarticulando politicamente categorias pelo enfraquecimento dos sindicatos.
Dia desses, em meio a um debate sobre a escala 6 por 1, escutei de um trabalhar a seguinte opinião: “O sindicato não emprega. Não posso perder o meu emprego.” A questão que desejo enfatizar é o que está por trás dessa afirmação: uma narrativa que manipula necessidades, sofrimento e a insegurança de quem precisa do trabalho para sobreviver.
Por essa abordagem, ideias distorcidas são incutidas no sistema de crenças do(a) trabalhador(a), a exemplo daquela que posiciona o mérito e o trabalho como variáveis únicas determinantes do sucesso profissional bem aquelas que “glamourizam” a conexão ininterrupta com a empresa, por meio de sobrejornadas sem descanso. Nesse processo, a vida privada torna-se cada vez achatada.
Essa dedicação extrema é vendida como evidência de comprometimento. Aliás, o ócio é para os fracos (ironia). O problema surge quando esse(a) trabalhador(a) adoece. A fragilidade, inclusive, é mal vista e precisa ser ocultada a todo custo.
Não sem razão o(a) trabalhador(a) é direcionado a manter um(a) personagem que projete a expectativa do que se entende por profissionalismo (antifrágeis). A felicidade tornou-se uma exigência, forjando uma falsa positividade.
No contexto descrito, a reflexão e a ponderação crítica, mais que uma prática cognitiva, representam atitudes éticas necessárias.
Referências
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HAN, Byung-Chul A expulsão do outro: sociedade, percepção e comunicação hoje. Petrópolis, RJ : Vozes, 2022.



