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A desidentificação como um instrumento do racismo

rapaz negro em frente ao espelho

A raça é constituída politicamente como uma marca de desintegração da humanidade. Os seus efeitos são articulados e gerenciados para que corpos racializados sejam reiteradamente homogeneizados e significados à distância da humanidade pelas lentes brutais das ideologias dominantes. Essas ideologias se materializam nas práticas discriminatórias, nas organizações institucionais, nas estatísticas de violência, nos apagamentos epistêmicos, no gerenciamento precarizado das imagens dos corpos significados pelo racismo e na letalidade, simbólica e concreta, como um produto das relações de poder. A desidentificação, nesses termos, garante a eficácia dessa rede de poder que antecede e manipula a presença de corpos racializados, a fim de que eles sejam reduzidos à desumanidade.

As práticas de desidentificação do corpo racializado são multidimensionais. Podemos pensar, por exemplo, nas narrativas que se aportam na hiperssexualização de corpos negros. A redução de um corpo à lascívia irrefreável permite que ele seja significado como objeto de prazer, nunca como uma subjetividade. Mas a dinâmica de violência não para por aqui. A tradição política, sobretudo aquela que nasce na esfera do contrato, adverte que a vontade deve ser controlada por uma força reguladora. Sendo assim, uma presença designada pela vontade, reduzida aos seus efeitos, deve ser tutelada. Ademais, corpos enunciados pela vontade como movimento constante são, no escopo do discurso médico-científico moderno e contemporâneo, patologizados. Nesses termos, estamos diante de um campo bélico tridimensional: objetificação, gestão/tutela e patologização de corpos racializados. Compreendemos, assim, que as imagens de controle, como nos ensina a filósofa contemporânea Patrícia Hill Collins, sustentam práticas de aniquilamento da humanidade de sujeitos racializados. Práticas que se sustentam na intersecção de dinâmicas destrutivas, como o racismo e o sexismo, por exemplo.

Benedita da Silva — gigante por sua trajetória política na defesa dos Direitos Humanos e importante personagem na corrosão das barreiras políticas institucionais que se alimentam do racismo e do sexismo — foi alvo de uma das práticas mais sorrateiras e sofisticadas na manutenção das políticas discriminatórias: a desidentificação. Por meio dessa técnica, grupos que se localizam como hegemônicos insistem em operacionalizar o discurso, majorar sua presença em detrimento de outras e, de forma intencional (mesmo que se tente justificar como engodo), desassociar sujeitos racializados de si. Nome, história e trajetória política são pressupostos de humanização. Ao tentar retirar essas categorias de uma mulher negra, o que se faz é usufruir das políticas discriminatórias que utilizam a desidentificação como um instrumento de dominação. Todavia, nós sabemos que, embora essa tentativa seja reiterada e não esteja apenas na política institucional, as coalizações antirracistas fazem com que nos lembremos de onde viemos, da nossa ancestralidade, e que não iremos, embora esse seja o interesse de grupos políticos hegemônicos, nos perder, pois existimos em coletividade, memória e reciprocidade.

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