Filosofar: um contínuo exercício do ser-no-mundo

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A Filosofia e o estar do homem no mundo

A tarefa fundamental de toda a filosofia é dirigir uma interrogação ao mundo.  Quando pensamos no mundo a ser interrogado, temos de estabelecer os seus contornos no âmbito da produção histórica do homem, da ciência, da técnica, da política, da economia, do trabalho, da linguagem, da educação e do cotidiano. Segundo Rios (1997, p.11), “ao fazermos referência a uma reflexão de caráter filosófico, não podemos deixar de perceber seu caráter de eticidade”. Dessa forma, através das ações realizadas, colocamos em prática a nossa capacidade de interrogar e é justamente a filosofia que possibilita ao homem refletir e interrogar sobre o mundo e as coisas que o cercam. Ao fazer isso, o homem se torna o construtor de sua própria história.

“A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo, e nesse sentido uma história narrada pode significar o mundo com tanta ‘profundidade’ quanto um tratado de filosofia. Nós tomamos em nossas mãos o nosso destino, tornamo-nos responsáveis, pela reflexão, por nossa história […]”. (MERLEAU-PONTY, 1994, p. 19)

A filosofia quando interroga o faz sobre a existência, ou seja, sobre todas as coisas que estão no mundo e sobre o próprio homem.  O mundo não é um limite, é um horizonte. O que interroga é o objeto de escolha do interrogante. Resulta do cruzamento de sua vontade com o universo de seu envolvimento prático e do seu compromisso político, cultural e ideológico. A interrogação deve dirigir-se aos agentes do fazer, aos instrumentos da produção, aos seus pressupostos, objetivos e resultados. Ou seja, perguntar o que é,  como é e por que é, pois a atitude filosófica nada mais é do um contínuo exercício de questionamento.

“A atitude filosófica inicia-se dirigindo essas indagações ao mundo que nos rodeia e às relações que mantemos com ele. Pouco a pouco, descobre que essas questões pressupõem a figura daquele que interroga e que elas exigem que seja explicitada a tendência do ser humano a interrogar o mundo e a si mesmo com o desejo de conhecê-lo e conhecer-se. Em outras palavras, a Filosofia compreende que precisa conhecer nossa capacidade de conhecer, que precisa pensar sobre nossa capacidade de pensar.” (CHAUÍ, 2003, p.20)

Ao colocarmos em prática a nossa capacidade de interrogar o mundo e as coisas que nos cercam, estamos fazendo uma reflexão; o pensamento interrogando a si mesmo. “É a concentração mental em que o pensamento volta-se para si próprio para examinar, compreender e avaliar as suas idéias, suas vontades, seus desejos e sentimentos”.(CHAUÍ, 2003, p.20).

Somos seres que estamos no mundo e não meros sujeitos pensantes, estar no mundo significa estabelecer relações com os outros e com as coisas que nos cercam e, ao fazermos isto, estamos colocando em prática a nossa capacidade de interação. E a reflexão filosófica tem como objetivo fazer com que o homem se conheça enquanto ser-no-mundo, ser de existência.

“[…] a reflexão filosófica, ou ‘Conhece-te a ti mesmo’, indaga ‘Por quê?’, ‘O quê?’, ‘Para quê?’ e se dirige ao pensamento, à linguagem e à ação, ou seja, volta-se para os seres humanos. São perguntas sobre a capacidade e a finalidade para conhecer, falar e agir, próprias dos seres humanos. É um saber sobre o homem como ser pensante, falante e agente, ou seja, sobre a realidade interior dos seres humanos.” (CHAUÍ, 2003, p.21)

Interrogar e refletir é assumir a crença de que nada está assentado e nada é definitivo, mas provisório e parcial, isto é, que o ser-no-mundo é um ser em constante mutabilidade, tornando-se incerto e instável. Tal incerteza e instabilidade se desenrolam à medida que o mesmo frequenta o mundo. Giovani Reale  e Dario Antisseri ( 1991, p.628)  citando  Gadamer afirmam que  “o homem cresce sobre si mesmo, é um novelo de experiências e cada nova experiência é uma experiência que nasce sobre o fundo das anteriores e as reinterpreta.”

Filosofar é questionar a própria existência. Quem é o homem? Essa é a grande interrogação que se faz dos gregos até os nossos dias. São infinitos os quesitos que se juntam em diversas respostas a tal questão. O homem foi estudado pela filosofia grega, assim como pela filosofia cristã, pela filosofia moderna, como o é hoje. Não foi, porém, estudado sempre do mesmo modo, do mesmo ponto de vista, do mesmo ângulo.

Na filosofia clássica grega, o homem foi estudado a partir de uma perspectiva cosmológica; a contemplação da ordem e sua admiração assumem caracteres originais que passarão a constituir um dos traços marcantes do homem grego, uma vez que:

“[…] a cultura clássica elabora uma imagem do homem na qual são postos  em relevo dois traços fundamentais: o homem como animal que fala e discorre  (zôon logikón) e o homem como animal político (zôon politikón). Esses dois traços estão, em estreita correlação, pois só enquanto dotado do logos o homem é capaz de entrar em relação consensual com seus semelhantes e instituir a comunidade política.” (VAZ, 1998, p. 27).

Na filosofia cristão-medieval o homem é pensado em uma perspectiva soteriológica: Segundo Vaz (1998, p. 60), “A unidade do homem é pensada não em uma perspectiva ontológica, mas soteriológica, ela se desdobra em três momentos que se articulam como momentos de uma história ou de um itinerário salvífico”. O homem é um ser que é ordenado a ouvir a palavra de Deus que busca o caminho da salvação, onde à manifestação progressiva do ser e do destino do homem “se dá a conhecer por meio da narração de uma história que, sendo história da revelação e dos gestos salvíficos de Deus, é igualmente história da revelação do homem a si mesmo”.(VAZ, 1998, p. 61).

O homem na filosofia cristão-medieval é um ser que se encontra à mercê do destino e suas ações são sempre vistas como pecaminosas “inscrito no registro da queda e da falta, o homem carece de toda autonomia e vê-se à mercê do bom Deus e a depender da sua graça; pensada como uma antropologia do homem pecaminoso, nela o homem não é um enigma a ser decifrado, mas um mistério a ser confirmado”. (DOMINGUES, 1999, p. 30).

A filosofia moderna prolonga a tradição do homem como animal que fala e discorre, mas  dando-lhe um novo conteúdo, pois o esquema mecanicista se estenderá à explicação do homem, de acordo com Domingues (1999, p. 32), “no lugar das antropologias do homem interior e do homem pecaminoso, as antropologias do homem-máquina e do homem histórico […]” o conhecimento em torno do homem nesta época tem como referência a ciência.

Mesmo como um ser que freqüenta o mundo, o sujeito na pós-modernidade sofre, segundo Habermas (2002), uma crise de carência, motivação e sentido. Essa ausência de sentido para alguns autores, entre os quais Gilles Lipovetsky, traduz tendências ao hedonismo, ao consumismo e ao narcisismo.

No panorama da filosofia contemporânea, o homem ganha novas conotações e este é assombrado o tempo todo pela informação e pela expressão

“Os indivíduos, ao que se diz, exprimem-se no trabalho,por meio dos ‘contactos’, do desporto, dos tempos livres, de tal modo que não haverá uma única atividade que não passe a exibir o rótulo de cultural. Não se trata sequer de um discurso ideológico, trata-se de uma aspiração de massa cujo último avatar é a extraordinária profusão das rádios livres. Somos todos disc-jockeys, apresentadores e animadores: ligados a FM, e somos apanhados numa vaga de músicas, de declarações fragmentárias, de entrevistas, de confidências, de ‘tomadas de palavras’ culturais, regionais, locais, de bairro, de grupos restritos.” (LIPOVETSKY, 1998, p. 15)

A cultura possibilita ao indivíduo uma gama de informações, pois de acordo com Baudrillard (1995, p. 15) “a nossa volta, existe hoje uma espécie de evidência fantástica do consumo e da abundância, criada pela multiplicação dos objetos, dos serviços, dos bens materiais […]”.

O sujeito na pós-modernidade busca o tempo inteiro praticar ações que possibilitem ao mesmo prazer e o ser-no-mundo pós-moderno vê no consumo uma possibilidade permanente de satisfação.

“Consomem-se em altas doses e por flashes, atualidades, emissões médicas, históricas  ou tecnológicas, música clássica ou pop, conselhos  turísticos, culinários ou psi, confissões privadas, filmes: a hipertropia, a aceleração de mensagens, da cultura, da comunicação, são ao mesmo tempo título que  a abundância de mercadorias, parte integrante da sociedade de consumo. O hedonismo por um lado. O consumo por outro. A sociedade de consumo é fundamentalmente um sistema de abertura e de despertar, um meio de instrução flexível, ‘digest’ sem dúvida, mas permanente.” (LIPOVETSKY, 1998, p. 103).

Simultaneamente ao consumismo e ao hedonismo, o homem na pós-modernidade revive o mito de narciso “um fascínio sem precedentes pelo auto-conhecimento e pela auto-realização […]  (LIPOVETSKY, 1998, p. 51)  isto gera nos sujeitos um esvaziamento de suas finalidades sociais, pois, de acordo com Lipovetsky (1998, p.51), “ […] o narcisismo é efeito do crescimento de uma lógica individualista hedonista impulsionada pelo universo dos  objetos e signos, e de uma lógica terapêutica e psicológica […]”.

As reflexões realizadas levam-nos a duas conclusões:

Primeiramente, podemos concluir que a filosofia possibilita ao homem o exercício contínuo de interrogação e reflexão. Por meio dessas duas atitudes filosóficas, o homem se percebe enquanto ser no mundo e ser de existência.

No segundo momento, essas reflexões conduzem-nos à percepção de que, em cada época histórica da filosofia ocidental, diversas foram as concepções sobre o homem e sobre o mundo concebidas pelos filósofos. Mas, seja qual for a concepção, ela expressa uma experiência fundamental do homem em seu tempo.

 

Referências

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BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo.  Trad; Artur Morão.Lisboa, Portugal:Edições 70, 1995.

CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. 13ed. São Paulo: Editora Ática, 2003

DOMINGUES, Ivan. O grau zero do conhecimento – o problema da fundamentação das ciências humanas.  2ed. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

HABERMAS, Jurgen. O discurso filosófico da modernidade. Trad: Luiz Sérgio Repa e Rodnei Nascimento. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio – ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Trad: Miguel Serras Pereira e Ana Luísa Faria. Lisboa, Portugal. Relógio d’água Editores, 1998.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Trad: Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

REALE, Giovani e Antisseri Dario. História da Filosofia Vol. III. Trad: Álvaro Cunha. São Paulo: Edições Paulinas, 1991.

RIO, Terezinha Azeredo. Ética e competência. 5ª ed. São Paulo: Cortez Editora, 1997.

VAZ, Henrique Cláudio de Lima. Antropologia Filosófica I. 4ª ed. São Paulo: Loyola, 1999.

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