Há uma máxima da educação clássica que atravessou gerações, gentileza gera gentileza. No entanto, na era da Inteligência Artificial generativa, talvez seja necessário atualizar o adágio para algo menos reconfortante e mais material, gentileza gera consumo energético.
Sempre que incluímos um por favor ou um muito obrigada em um prompt dirigido ao ChatGPT, ao Gemini ou a qualquer outro sistema generativo, não estamos apenas reproduzindo um gesto civilizatório aprendido desde a infância. Estamos também adicionando unidades computacionais adicionais, os chamados tokens, que precisam ser processados, armazenados e interpretados por uma infraestrutura física de altíssima complexidade. A linguagem, que sempre foi considerada imaterial, revela agora o seu peso físico (CRAWFORD, 2021).
Há algo de profundamente perturbador nessa constatação. Durante séculos, acreditamos que as palavras pertenciam ao domínio do espírito. Elas eram sopro, intenção, símbolo. Agora sabemos que elas também são carga elétrica, dissipação térmica, consumo hídrico. A palavra, que fundou civilizações, hoje também aquece servidores.
Talvez este seja um dos deslocamentos mais silenciosos do nosso tempo. Não se trata apenas de uma nova tecnologia, mas de uma nova ontologia da linguagem. Escrever deixou de ser apenas um ato semântico. Tornou-se também um ato energético. Cada frase é, simultaneamente, significado e infraestrutura.
Estudos recentes indicam que consultas a sistemas de IA generativa podem consumir múltiplas vezes mais energia do que uma busca tradicional na internet, embora os valores variem conforme o modelo, o hardware e a escala de uso (IEA, 2024; PATTERSON et al., 2021). Cada interação aparentemente trivial mobiliza cadeias invisíveis de processamento que dependem de data centers, redes elétricas e sistemas de resfriamento. O gesto de cortesia, nesse contexto, deixa de ser apenas uma escolha cultural e passa a integrar uma economia energética global.
Mas há uma ironia delicada aqui. A cortesia sempre foi uma tecnologia social de redução de conflitos. Dizemos por favor para suavizar o mundo. Dizemos obrigado para reconhecer o outro. Quando transferimos essa lógica para a máquina, estamos talvez tentando humanizar aquilo que sabemos que não é humano.
No fundo, não estamos sendo gentis com a máquina. Estamos tentando preservar a nossa própria humanidade diante dela.
A geopolítica da sede digital
A metáfora da nuvem sempre foi eficaz para ocultar a materialidade da infraestrutura digital. No entanto, a nuvem tem localização, consome território e exige recursos naturais. O funcionamento contínuo de grandes modelos de linguagem depende de centros de dados que consomem volumes significativos de eletricidade e água, especialmente para resfriamento dos sistemas computacionais (RENNER, 2023; UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME, 2024).
Relatórios ambientais recentes estimam que o crescimento acelerado da inteligência artificial poderá ampliar substancialmente a demanda hídrica e energética do setor tecnológico na próxima década (IEA, 2024). A inteligência artificial, frequentemente celebrada como tecnologia imaterial, revela-se profundamente dependente de condições geográficas específicas, energia abundante, disponibilidade hídrica e estabilidade jurídica (BRATTON, 2016).
A nuvem não flutua. Ela repousa. Ela ocupa espaço. Ela exige concessões políticas, contratos administrativos, incentivos fiscais. Ela precisa de água que antes irrigava plantações e de energia que antes iluminava cidades.
Há, portanto, uma disputa silenciosa entre diferentes usos do mundo físico. Entre o resfriamento de servidores e o resfriamento de corpos. Entre o processamento de dados e a sobrevivência de territórios. Essa dependência está a redesenhar o mapa global da infraestrutura digital.
Grandes empresas de tecnologia disputam territórios capazes de oferecer simultaneamente segurança regulatória, energia confiável e recursos naturais suficientes para sustentar a expansão computacional. O que está em jogo não é apenas eficiência técnica, mas poder geopolítico (COULDRY; MEJIAS, 2019).
O data center tornou-se uma nova forma de presença territorial. Não é uma embaixada, mas exerce influência. Não é uma base militar, mas redefine soberanias. Ele não ocupa apenas espaço físico. Ocupa futuros possíveis.
Quando uma infraestrutura digital se instala, ela reorganiza economias, dependências e prioridades políticas.
Ela reescreve o destino dos lugares.
O Brasil como território estratégico
Nesse cenário, o Brasil emerge como um destino estratégico. Sua matriz energética relativamente limpa e sua disponibilidade hídrica tornam o país especialmente atrativo para a instalação de data centers (MINISTÉRIO DAS COMUNICAÇÕES, 2026).
O anúncio de investimentos bilionários no setor sinaliza oportunidades econômicas relevantes, mas também exige reflexão crítica. A presença física da infraestrutura não garante, por si só, soberania tecnológica. Quando os equipamentos, os modelos e a propriedade intelectual permanecem sob controle estrangeiro, o território nacional pode assumir o papel paradoxal de hospedeiro material e dependente informacional (ZUBOFF, 2019).
Há um padrão histórico que não podemos ignorar. Durante séculos, exportamos pau-brasil, açúcar, ouro, café. Hoje, podemos estar a exportar energia limpa, água e estabilidade institucional para sustentar inteligências que não nos pertencem.
Mudam os recursos. Permanece a lógica.
A pergunta fundamental não é apenas econômica. É existencial.
Estamos a construir autonomia ou a aprofundar dependências invisíveis.
O risco não é apenas ambiental. É também político e epistemológico.
Podemos nos tornar provedores de energia, água e território para sistemas cuja inteligência e cujos benefícios estratégicos são apropriados em outras jurisdições.
E talvez o maior paradoxo seja este.
A inteligência artificial pode aprender tudo sobre nós, sem jamais nos pertencer.
A ética da consciência tecnológica
Talvez, o verdadeiro desafio não é decidir se devemos ou não dizer obrigado às máquinas. Mas, compreender que estamos a entrar numa era em que até mesmo os nossos gestos simbólicos participam de ecologias energéticas, econômicas e políticas (BRATTON, 2016).
A inteligência artificial não possui sentimentos. Não experimenta gratidão. Não reconhece gentileza. Elas os emula. É uma máquina.
Mas o planeta reconhece consumo. E a soberania reconhece dependência.
Talvez a maior ilusão do nosso tempo seja acreditar que estamos apenas utilizando ferramentas.
Ferramentas não reorganizam civilizações. Infraestruturas, sim.
E é isso que a inteligência artificial também é: Uma infraestrutura que atravessa linguagem, poder e matéria.
Talvez o futuro não exija que sejamos menos gentis, certamente exigirá que sejamos mais responsáveis. Porque, pela primeira vez, cada palavra que escrevemos não apenas descreve o mundo. Ela também o consome.


