O estar do homem no mundo e a questão da finitude

O estar do homem no mundo e a questão da finitude

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Há muito tempo, no Tibete, uma mulher viu seu filho, ainda bebê adoecer e morrer em seus braços, sem que ela nada pudesse fazer. Desesperada, saiu pelas ruas implorando que alguém a ajudasse a encontrar um remédio que pudesse curar a morte do filho. Como ninguém podia ajudá-la, a mulher procurou um mestre budista, colocou o corpo da criança a seus pés e falou sobre a profunda tristeza que a estava abatendo. O mestre, então respondeu que havia, sim, uma solução para a sua dor. Ela deveria voltar à cidade e trazer para ele uma semente de mostarda nascida em uma casa onde nunca tivesse ocorrido uma perda. A mulher partiu, exultante, em busca da semente. Foi de casa em casa. Sempre ouvindo as mesmas respostas. “Muita gente já morreu nessa casa”; “Desculpe, já houve morte em nossa família”, “- Aqui nós já perdemos um bebê também”. Depois de vencer a cidade inteira sem conseguir a semente de mostarda pedida pelo mestre, a mulher compreendeu a lição. Voltou a ele e disse: “O sofrimento me cegou a ponto de eu imaginar que era a única pessoa que sofria nas mãos da morte”.  (RINPOCHE, 1999, p.45)

A morte sempre esteve presente na história da humanidade como um processo inerente ao fenecimento do indivíduo. Morrer nada mais é do que um ato simbólico, o que difere é a forma, a maneira como cada cultura lida com a questão, pois os sentidos atribuídos ao processo do morrer sofrem variações segundo o momento histórico e os contextos sócio-culturais. De acordo, com Kluber-Ross (2005, p.7), “Quando retrocedemos no tempo e estudamos culturas e povos antigos, temos a impressão de que o homem sempre abominou a morte e, provavelmente sempre a repelirá.”

Neste processo, é necessário compreender que a morte foi vista e vivenciada   de acordo como as diferentes épocas históricas, uma vez que, a relação que o homem estabeleceu com a morte está correlacionada ao momento político, social, religioso, cultural em que este se encontra inserido.

Ao longo da história da humanidade, os sentimentos e as reações expressas pelo homem diante da morte vêm se transformando. Mesmo diante da única certeza que o ser-no-mundo possui, ele é impelido a evitar a convivência com a morte. Vivemos em uma sociedade em que a morte não é vista como parte da vida, e sim como um castigo ou algo inaceitável, portanto, um assunto que deve ser evitado. Entre os medos que envolvem a morte, o mais comum de todos é o de que ela seja dolorosa. Entretanto ao negarmos a discussão sobre a morte não podemos minimizar esse temor. Compreender sobre essas atitudes poderá contribuir para o entendimento expresso pelo homem diante da morte.

A certeza da morte como um fato inevitável em nossas vidas permeia o senso comum se apresentando em forma de ditos, histórias, mitos e lendas que são passadas de geração em geração perpetuando e enriquecendo nossa cultura popular. Questões que se relacionam com a vida após a morte, ritos de passagem, símbolos e elementos que traduzem o processo de morrer povoa a mente humana e consolida no imaginário coletivo uma cultura típica de cada sociedade ou região determinada. Segundo Rodrigues (1983), “a Cultura, adquire, ou funda o seu próprio sentido, aos olhos de seus membros […]. Estabelecida a sua identidade própria, precisa instituir ‘internamente’ os cortes e os contrastes por meio dos quais o seu domínio íntimo se carregará de sentido e fará sentido nas mentes dos indivíduos.

Quando falamos de vida e morte em paradoxo pensamos na questão dos rituais que iniciam com a celebração do nascimento e, que nos momentos finais da nossa existência se constitui com o rito de passagem.

Em outras palavras, dizemos que:

[…] não havendo maneira de experimentar diretamente esta presença anunciada, esse encontro tão desmesurado e extraordinário, só nos resta, enquanto vivos, apelar para uma abordagem indireta, em busca de conhecer através da história da humanidade como a morte foi vivida, como os seus efeitos foram acolhidos, trabalhados e simbolizados pelos diferentes tempos e sociedades. (CORREA, 2008, p.9)

Há uma preocupação muito grande por parte das pessoas em seguir os ritos e dogmas ditados pela cultura e religião e quando isto não é seguido há uma ruptura de conceitos que destoa da grande maioria. Este tipo de situação é observado em grandes centros urbanos e está diretamente relacionado com os avanços da ciência que cria uma cultura mais racionalizada de forma a relegar a cultura popular a um segundo plano. Não obstante à cultura seja ela popular ou erudita, o homem independente do conhecimento e do lugar que ocupa na sociedade, sempre vivenciou e vivenciará as questões ligadas à morte e o morrer, levando em consideração a época na qual encontra-se inserido. Por isso, percebe-se que, em cada período histórico o homem vivencia a morte e referencia os seus mortos de uma forma peculiar.

O homem primitivo respeitava e cuidava de seus mortos, os homens de Neandertal, deram sepulturas a seus entes falecidos, não por uma questão de instinto, mas sim uma espécie de revolta contra a morte. “Os mortos […] são enterrados; pedras são amontoadas sobre seus despojos, cobrindo especialmente o rosto e a cabeça.” (MORIN, 1997, p.25).

No período arcaico grego, o homem estabelece com os deuses vínculos pessoais e relações simbólicas. É o período onde há uma nítida separação entre o mundo dos deuses e o mundo dos homens, os primeiros são seres imortais e os segundo seres efêmeros, ou seja, seres para a morte; e a finitude se torna a única certeza que o mesmo tem.

No século X, a morte familiar foi denominada por Àries (2003) de “morte domada”, nesta época os cavaleiros e monges sabiam que iam morrer, “não se morre sem se ter tido tempo de saber  que se vai morrer” (ÁRIES, 2003, p.27).  O sujeito era avisado por signos naturais ou tinha uma convicção íntima, ou talvez, uma verdade implícita de que estava morrendo. Avizinhando de seu fim próximo, o ser-no-mundo ainda possuía algum tempo para tomar suas providencias, despedindo-se dos entes queridos, reconciliando-se com os  desafetos e distribuindo os seus bens. Neste período, esquecia – se do mundo e centrava em Deus a fim de suplicar-lhe que sua alma fosse salva. Havia neste ato, alguma manifestação de insegurança diante do desconhecido, mas a morte era sentida e vivenciada como um ato público e organizado. (HEIDEGGER, 1989).

Com o advento do cristianismo, as pessoas passaram a ser enterradas nas igrejas, ou próximas às elas para que ficassem junto aos santos. Os cemitérios eram na igreja ou ao seu lado. Pouco a pouco as pessoas deixaram de ser enterradas dentro das igrejas, e os espaços próximos a ela começaram a ser ocupados com cemitério. Não era importante o destino dos ossos, desde que ficassem próximos aos santos ou o altar da igreja. O corpo era confiado à igreja. Os mortos e vivos ficavam juntos no cemitério. Nesse local, os vivos faziam festas, dançavam e jogavam. As pessoas mostravam estar muito familiarizadas com os corpos sem vida. A familiaridade com a morte era uma forma de aceitação da ordem natural da vida. Os corpos eram confiados aos santos que protegiam a alma do mal, no Dia do Juízo Final, em que a pessoa era julgada em suas boas e más ações. O indivíduo era apenas um espectador que iria submeter à luta entre as potências do bem e do mal no final dos tempos. Mas, a partir do século XV, o dia do Juízo Final fora substituído pela “última prova”. Essa prova consistia em uma última tentação. No momento final, o homem revia sua vida inteira e teria que abrir mão, ou não, do amor apaixonado por seres estimados e coisas, dos corpos belos e sensuais que simbolizava o pecado e dos bens materiais.  Se repudiasse todas as tentações, os pecados eram apagados, caso contrário, suas boas ações seriam anuladas. Segundo Áries (2003), acredita-se a partir de então que cada homem revê sua vida inteira no momento em que morre de uma só vez. Aceitava-se  também, que sua atitude nesse momento daria a sua biografia seu sentido definitivo, sua conclusão.

A morte não é mais vista como algo natural, mas sim como algo que causa tremor. O medo do homem não se encontra somente na possibilidade de fazer o rito de passagem a qualquer momento, mas sim de deixar para trás as coisas materiais, os projetos, os sonhos e os sujeitos. A solenidade ritual da morte no leito tomou, a partir deste período, um caráter dramático e passou a ser vivido com uma emoção, que antes não possuía. Esse ritual passou a ter um caráter individual e conflituoso, já que surge o apego apaixonado às coisas e seres. Destacando-se, assim, uma paixão pela vida.

A partir do século XVIII, a morte assume um sentimento novo: a morte do outro. Morte que não é mais aceita, pois torna-se intolerante a separação do outro querido e amado. A morte toma a conotação de ruptura e separação. Naturalmente, a expressão da dor dos sobreviventes é consequência dessa mudança frente à morte, de intolerância da separação do outro. […] a morte temida não é mais a própria morte, mas a do outro. (ÀRIES, 2003, p.72).

A intolerância frente à morte do outro e a necessidade de mantê-lo vivo nas recordações modificou os túmulos e o luto. Uma forma de estar próximo ao outro é visitar o seu túmulo. Os túmulos antes esquecidos nas igrejas passam a ter lugares demarcados como uma forma de assegurar a perpetuidade. A recordação pode conferir ao morto uma espécie de imortalidade.

O período do renascimento foi marcado por temas macabros, pois o homem percebeu o sentimento amargo e desesperado de sua fragilidade, traduzido pelos sinais da morte física. Na arte e na literatura o tema era a decomposição do corpo humano, mostrando os acontecimentos debaixo da terra os quais não eram vistos. A morte tornou-se neste período um objeto de fascínio representado pelo erotismo macabro e mórbido. “A magreza esquelética do cavalo do cavaleiro do Apocalipse de Duner, que é a Morte, deixou intacta sua capacidade genial, de tal modo que não é mais possível ignorá-la” (ÁRIES, 2003, p.147).

Os temas macabros tornam-se carregados de erotismo. O amor e morte se unem nas fontes icnográficas e literárias, como na história de Romeu e Julieta. O teatro barroco apresenta cenas de amor nos cemitérios e nos túmulos. O erotismo mórbido é representado “pelo espetáculo físico da morte e do sofrimento” (ÁRIES, 2003, p.148), cuja perversidade não é declarada. Os corpos nus dos mortos eram admirados como forma de beleza e fascínio. A beleza do nu substituiu os corpos em decomposição.

Caminhando na história, a partir desse momento, houve um  desabrochar do tema macabro. Esse tema traduz um sentimento do nada. A morte passou a ser macabra por si mesma, tornando-se penosa e causadora de medos. Começaram a ter consciência dos corpos mortos e não das almas imortais.

No final do século XIX a morte torna-se selvagem e incompreensível. Desaparece a imagem da morte, em que o culto aos mortos não é comentada e passa a ser algo proibido. Mas, os vivos podem, mesmo negando, estarem vivenciando a condição da morte e do morrer.

Segundo Menezes (2002), a morte da mesma forma que a doença deve ser compreendida de acordo com o contexto histórico, cultural e social.  Segundo a autora, o tema de estudos sobre a morte só teve relevância para os pesquisadores após a Segunda Guerra Mundial. Através das transformações ocorridas nesse período a morte, obteve um privilegiado campo de observação e   análise. Por meio dessas observações, filósofos, poetas e cientistas produziram uma “literatura analítica e crítica sobre esse modelo de morte” (MENEZES, 2002, p.25), que foi denominado por Áries (2003, p.85), de “morte moderna”. O hospital como instrumento terapêutico surgiu no final do século XVIII, sendo profundamente desenvolvido no século XX. A medicina torna-se a central de referências no que se refere à saúde, vida, doença, sofrimento e morte.

A relação do homem com a morte mudará profundamente a partir do século XX, pois deixará de ser um acontecimento familiar ou social vivido na e pela comunidade e, ganha contornos que permanecerá até hoje. A ordem passa a ser evitar que o enfermo conheça sua real situação. A morte se desloca da casa, onde sempre vivera o moribundo, lá estavam as suas raízes, as suas lembranças, os seus familiares e os pertences, para um espaço de anonimato, para um ambiente frio, vazio e desconhecido: a solidão do quarto de hospital. […]. Não se morre mais em casa, morre-se sozinho ou entre desconhecidos no leito hospitalar.” (CORREA, 2008, p.33), morre-se assepticamente nas unidades de terapia intensiva, com recursos tecnológicos modernos e especializados, mas em total isolamento. A preocupação hoje não é proteger o doente e sim impedir que a rotina institucional seja perturbada.

O fato de sermos seres finitos e possuidores da consciência que vamos morrer um dia nos coloca diante de uma angústia que nos acompanha por toda a vida e, de acordo Aranha (2009) “a morte é o destino inexorável de todos os seres vivos”, entretanto, o sujeito enquanto ser de projeto e de possibilidades não a vê como uma realidade presente o que faz com que o mesmo busque a todo instante não pensar na  finitude enquanto um fato que pode se desenrolar a qualquer instante sem nenhum aviso prévio. “A vida é como um contrato que estabelece a própria vigência em uma das suas cláusulas. Ou seja, basta estar vivo para estar sujeito às leis da existência que determinam o seu próprio término”. (VOMERO, 2002, p.41). Por ser a morte um conhecimento inato, apreendido pelo homem enquanto ser de existência, este sempre se surpreende com ela (SOUTO, 2002). Como fuga a esta realidade, buscamos racionalizar a possibilidade de morte como um acontecimento longínquo e que não nos acometerá enquanto gozarmos da plenitude da juventude.

A morte encontra-se presente em todas as etapas da vida de muitas e variadas formas, não somente na velhice ou na doença. Segundo CORREA, (2008), pode-se dizer que ela está por toda parte, faz-se presente quando e onde menos é esperada, até nas festas e em momentos reservados à alegria, quando a vida se apresenta em toda a sua força e pujança.

A vida no século XXI, se comparada com os períodos anteriores, tornou-se mais previsível, exigindo de cada sujeito um grau mais elevado de antecipação e controle dos sentimentos.

 

Referências

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ARANHA MLA; MARTINS MHP. Filosofando: introdução à filosofia. 4. ed. São Paulo: Moderna; 2009.

ÁRIES, P. A história da morte no ocidente. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.

CORRÊA, José de Anchieta. Morte. 1ª ed. São Paulo: Globo, 2008.

HEIDEGGER, M. Conferências e escritos filosóficos. São Paulo: Nova Cultural, 1989.

KLUBER-ROSS,E. Sobre a morte e o morrer. 8 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

MENEZES, R. A. Em busca da boa morte: antropologia dos cuidados paliativos. Rio de Janeiro: Garamond Fiocruz, 2004.

MORIN, Edgar. O homem e a morte. Tradução de João Guerreiro Boto e Adelino dos Santos Rodrigues. Rio de Janeiro: Imago, 1997

RODRIGUES, J.S. Tabu do corpo. 3 ed. Rio de Janeiro: Edições Achiamé Ltda, 1975.

RINPOCHE, S. O livro tibetano do viver e do morrer. São Paulo: Editora Talento, 1999.

SOUTO, G. M. M. Cuidado condição de existência do ser-no-mundo.  Enfermagem Revista: Cadernos de Enfermagem, Belo Horizonte, v.6, n.11 e 12, 2000.

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