A adesão ao teletrabalho não implica necessariamente em qualidade de vida e flexibilidade de jornada. Bem, isso vale para todos. A narrativa que apresenta essas vantagens não encontra correspondência na experiência de muitos trabalhadores, especialmente das trabalhadoras assalariadas de baixa renda que acumulam as tarefas profissionais e de cuidado (care work), pela ausência de uma rede adequada de apoio.
TELETRABALHO E QUALIDADE DE VIDA. Geralmente, quando se fala em teletrabalho, vislumbra-se como vantagem principal o melhor aproveitamento do tempo que seria gasto no deslocamento ‘residência-trabalho-residência’. Ocorre que para muitos trabalhadores esse tempo não se converte em um intervalo maior de desconexão. As razões são diversas, mas as apresentarei no próximo artigo. Pois bem, para uma parte significativa de mulheres, certamente o tempo de deslocamento não se converte em um tempo de qualidade, afinal, o dever de cuidado frequentemente recai sobre elas, sejam esposas, filhas, mães ou irmãs.
O tempo que seria destinado ao deslocamento é preenchido pelo trabalho de arrumação das crianças para escola, de preparação das refeições, de organização da casa e o que mais couber naquela janela de tempo entre desjejum e o início da jornada de trabalho, ou entre o encerramento da jornada e o tempo que se segue. Costumo dizer que em uma única mulher cabe muitos papéis e versões dela mesma.
Não estou afirmando genericamente que o teletrabalho não pode ser ou tornar-se uma alternativa interessante. Almejo apenas destacar a necessidade de não se romantizar o teletrabalho com generalizações descontextualizadas, desconectadas da realidade. Fazê-lo tem o mesmo efeito de negar as desigualdades atreladas aos marcadores sociais de gênero, raça e de classe, variáveis interseccionais determinantes das experiências no mundo do trabalho. Entendo que é preciso descortinar as contradições dessa realidade, iníqua para muitas mulheres.
Aprendemos desde cedo a fragmentar a vida (pessoal e profissional), como se pudéssemos nos desconectar e deixar em casa todos os problemas, as preocupações e alegrias da vida pessoal. Apesar da evidente impossibilidade, nos condicionamos a respeitar a premissa de separação, demarcando esses espaços. Os limites físico e temporal se estabelecem em um contrato implícito de convivência no ambiente de trabalho. A linha divisora da vida no teletrabalho deixa de existir.
Para algumas mulheres, a jornada que antes era sucessiva, tornou-se simultânea e intensa. Para além das interrupções contínuas, os intervalos intrajornada são preenchidos por tarefas de cuidado, trabalho que continua após o encerramento da jornada contratada pelo empregador (sobrejornada), o que exige um eficaz gerenciamento cognitivo.
Decididamente, ser mulher não é fácil, especialmente em um país no qual a classe patronal mais abastada milita em favor da aplicação de jornadas exaustivas.
As condições de prestação são diversas. Nesse contexto conturbado, a trabalhadora entra em um estado de disponibilidade constante para as demandas dessa vida não fragmentada.
Se seccionar a vida era um desafio, desfragmentá-la é outro muito maior e exaustivo. Enquadrando a realidade por esse prisma, não há desconexão genuína por uma razão muito simples: o botão “desligar” é imaginário. Em suma, a ideia que nos venderam sobre qualidade de vida não é para TODAS.
O que se segue daí? A erosão dessa fronteira e a tensão decorrente da pulsão de toda essa carga emocional permanente podem resultar no esgotamento físico e mental, na elevação dos níveis de cortisol, na perda do foco, na fragmentação da atenção, na desmotivação, enfim, na desesperança. O risco de Burnout silencioso é significativo.
TELETRABALHO E A FALÁCIA DA FLEXIBILIDADE. A flexibilidade na gestão do tempo (rotina autogerida) não é um requisito legal do teletrabalho, até porque é possível o controle de jornada. Ainda que a avaliação de desempenho do teletrabalhador ou teletrabalhadora seja baseada na entrega (tarefas realizadas ou produção), a subordinação não é afastada.
A flexibilidade, nesse contexto, é relativa, podendo ser inclusive aparente, já que a cobrança desarrazoada pelo atingimento de metas e a pressão excessiva para entrega de resultados (assédio por desempenho) superam qualquer controle objetivo de jornada. Essa é a razão pela qual muitas mulheres se sente insuficiente (inadequada, culpada), ainda que injustamente. Realmente, o teletrabalho pode aprofundar as desigualdades de gênero. Mas esse é assunto para outro artigo.



