No último dia 26 de outubro, participei de um evento que debatia o cenário da ética, do conhecimento e da política à luz das perspectivas decoloniais e anticoloniais. Minha apresentação abordou as reflexões que desenvolvi em meu estágio pós-doutoral, no qual propus uma relação dialógica entre Achille Mbembe e Judith Butler. Em particular, discuti as articulações entre o conceito de alterocídio e as teses da filósofa sobre os enquadramentos políticos da vida.
De um lado, mobilizei as formulações de Mbembe, que circunscrevem as bases odiosas e letais da política contemporânea, herdeira dos pactos excludentes da modernidade colonial, que identifica o outro como inimigo e alvo, interditando, assim, a possibilidade de reconhecimento. De outro, examinei as teses de Butler, que evidenciam como a transformação do outro em um ser abjeto, uma figura pública desprezível e descartável, traduz uma gestão dos enquadramentos, isto é, das produções, sobretudo normativas, que conferem ou negam legitimidade a uma vida. Nessa mesma ocasião, fui confrontado por uma questão que apresentei aqui de forma livre: “Não seriam essas perspectivas uma ênfase excessiva na particularidade, em oposição aos interesses da universalidade, inclusive no âmbito da filosofia?”. Há muito tempo, contudo, inclusive à luz das perspectivas críticas anticoloniais, desconfio de categorias como universalidade e neutralidade.
Na ocasião, mencionei, como exemplo, a maneira pela qual a suposta universalidade é atravessada por marcações de poder e, apresentada sob o signo da neutralidade, serve à reprodução da norma. Comentei, por exemplo, como as reportagens sobre crimes cometidos por homens negros frequentemente nos colocam, a nós, homens racializados, sob o signo do pânico e do perigo. Em contrapartida, homens brancos que cometem crimes são nomeados e destacados como figuras desviantes em relação à masculinidade branca, historicamente construída como modelo de virtude, moralidade e humanidade.
É importante destacar que a suposta neutralidade dessa universalidade foi historicamente articulada de modo a blindar dinâmicas profundamente violentas de marcação. É preciso frisar que a violência que atinge o corpo marcado não é acidental: ela é produzida por quem marca. Na trama do racismo, por exemplo, a branquitude, enquanto sistema de gestão política, marca os corpos racializados, ao mesmo tempo que apresenta as pessoas brancas como expressão da ausência de localização, da universalidade e da própria humanidade. Observe-se que o argumento da neutralidade e da universalidade sustentou, inclusive, regimes de execução epistêmica, cultural e valorativa, da modernidade até a contemporaneidade. Isso se evidencia, por exemplo, no processo de colonização, estruturado a partir de oposições radicais entre “razão” e “desrazão”, “humanidade” e “selvageria”, “civilidade” e “incivilidade”, bem como entre os “signatários do contrato entre os semelhantes” e os “outros”.
Dando continuidade à resposta que apresentei diante daquela provocação, durante a conferência, pergunto: não seria, na verdade, um problema silenciar as denúncias feitas por grupos marginalizados sob o pretexto de não ferir a universalidade política e sua suposta neutralidade? Não teria sido essa uma das estratégias coloniais que se mantêm na contemporaneidade, reafirmando posições de humanidade que, a partir de seus próprios referenciais, precarizam a diferença? Não é possível observar que a universalidade, inclusive quando mobilizada como recurso para definir o que é reconhecível como humano, também exclui dessa categoria os corpos posicionados como dissidências?


