Meu corpo é a voz que ecoa: uma resenha crítica de Políticas de Descontinuidade: Ética e Subversão, de Thiago Teixeira

Meu corpo é a voz que ecoa: uma resenha crítica de Políticas de Descontinuidade: Ética e Subversão, de Thiago Teixeira

Políticas-de-Descontinuidade-ética-e-subversão

Introdução

O livro Políticas de Descontinuidade: Ética e Subversão, de Thiago Teixeira, convida a reflexões filosóficas acerca dos debates contemporâneos sobre a ética, política e subjetivações, problematizando os modos pelos quais a produção normativa dos sujeitos nas sociedades modernas sustenta a manutenção de hierarquias, exclusões e violências estruturalmente naturalizadas. A obra insere-se nas complexidades éticas e políticas da sociedade contemporânea e no campo da teoria crítica, dialogando com debates centrais sobre as dinâmicas de poder, reconhecimento e marginalização dos corpos anunciados como dissidentes, bem como sobre práticas de ruptura e processos de resistência e reinvenção de si diante das tecnologias de poder que regulam corpos.

Nesse sentido, o livro oferece contribuições relevantes, ao permitir compreender os processos formativos dos sujeitos como espaços atravessados por relações de poder e por possibilidades de resistência e subversão. Com o intuito de dialogar com o pensamento de Thiago Teixeira, essa reflexão não se apresenta apenas como exercício teórico abstrato, mas interpela diretamente corpos situados às margens da norma, como o meu e de outros corpos dissidentes, para os quais a ética se manifesta cotidianamente como experiência de silenciamento, violência e, também, de luta por reconhecimento.

Síntese da obra

Desde os capítulos iniciais, Teixeira tensiona concepções tradicionais de ética ancoradas em princípios fixos, transcendentais e universalizantes, evidenciando como tais regimes normativos, ao se apresentarem como neutros e contínuos, acabam por legitimar práticas de exclusão e silenciamento de corpos anunciados como dissidentes. Nesse sentido, a noção de “descontinuidade ética” emerge como um eixo central do argumento e como recusa à linearidade moral e à estabilidade identitária, configurando- se não como ausência de ética, mas como um gesto ético-político de ruptura com as normatividades hegemônicas e de abertura a outras possibilidades de reconhecimento e existência.

A repetição acrítica de normas morais e valores políticos sustenta uma estrutura de dominação que opera de forma silenciosa e persistente. Nessa perspectiva, a ética é compreendida como prática de si produzida no interior, e não fora, das relações de poder, definindo quais vidas são consideradas dignas de proteção, reconhecimento e luto, e quais permanecem vulneráveis à marginalização ou ao descarte.

Ao longo da obra, o autor argumenta que o poder não deve ser compreendido apenas como instância repressiva, mas como força produtiva que fabrica subjetividades, normaliza condutas e delimita os horizontes do possível. Nesse contexto, a subversão ética não se configura como gesto heroico ou exterior às relações de poder, mas como exercício cotidiano de deslocamento, rupturas e invenção de si.

Um dos eixos centrais do livro é a crítica à política do reconhecimento. Para o autor, o reconhecimento institucional não elimina desigualdades; ao contrário, administra-as. Ele opera por meio de concessões condicionadas, nas quais sujeitos e grupos são reconhecidos apenas na medida em que se adequam a parâmetros previamente definidos pelo poder. Dessa forma, o reconhecimento não subverte as hierarquias existentes, mas contribui para sua reprodução.

Nesse movimento analítico, a crítica atravessa diferentes contextos históricos e sociais de produção e exclusão, como o racismo estrutural e a cisheteronormatividade, evidenciando como determinados corpos e identidades são historicamente produzidos como ameaça, desvio ou excesso. Tais configurações não constituem exceções ao sistema ético-político vigente, mas efeitos diretos de uma ética que naturaliza a exclusão.

Diante disso, o autor propõe a descontinuidade como alternativa ética e política, entendida como recusa à reiteração de normas que se apresentam como justas, mas que sustentam a violência, bem como ao consenso que as legitima.

Análise crítica

A principal contribuição de Políticas de Descontinuidade reside na radicalidade de sua crítica à ética moderna. Ao deslocar a ética do campo da neutralidade para o da produção ativa de exclusões, a obra atravessa diretamente minha trajetória acadêmica e profissional no campo da Educação Física, área historicamente marcada por regimes normativos que operam sobre o corpo a partir de ideais de normalidade, desempenho, funcionalidade e adequação. Ao problematizar a ética como prática situada nas relações de poder, o autor oferece ferramentas conceituais que tensionam a própria forma como corpos são produzidos, regulados e hierarquizados nos espaços formativos. Esses tensionamentos ressoam de modo particular em minha experiência enquanto corpo dissidente das normas cisheteronormativas.

A leitura da obra adquire especial densidade quando situada a partir de experiências de sujeição e violência. Minha formação em Educação Física, tanto na licenciatura quanto no bacharelado, revelou de maneira recorrente como o corpo é frequentemente reduzido à sua dimensão biológica, técnica e produtiva, silenciando suas marcas políticas, afetivas e históricas. Tais atravessamentos tendem a naturalizar violências simbólicas e materiais, legitimando processos de exclusões sob o discurso da neutralidade cientifica, da saúde ou do rendimento. Assim, a proposta de descontinuidade ética apresentada pelo autor, não se apresenta apenas como categoria teórica, mas como exigência prática de sobrevivência e resistência.

Enquanto homem trans negro, a crítica formulada por Teixeira ressoa diretamente em um cotidiano marcado por violências veladas, estigmas sociais e formas sutis, porém persistentes, de negação de reconhecimento. As normas éticas que se reivindicam universais funcionam, em muitos casos, como dispositivos de poder que produzem exclusão, impondo a determinados corpos uma existência marcada pela precariedade, pela vigilância e pela permanente exigência de legitimação. No campo da Educação Física, essa interpelação se intensifica: o corpo que não corresponde aos padrões cisnormativos, binários e funcionais frequentemente é tratado como problema, exceção ou inadequação.

A crítica de Teixeira à política do reconhecimento ajuda a compreender como determinadas inclusões institucionais operam mais como mecanismos de gestão da diferença do que como efetiva transformação das estruturas de poder. A recusa em reiterar normas que regulam corpos, gêneros e sexualidades de maneira violenta torna- se, assim, um gesto ético cotidiano, ainda que frágil e provisório.

A subversão, tal como pensada por Teixeira, manifesta-se menos como ruptura e mais como deslocamento contínuo das expectativas normativas que incidem sobre corpos dissidentes. Reconhecer esses corpos apenas quando se ajustam a parâmetros normativos não rompe com a violência, mas a reinscreve de forma mais sofisticada.

Produzir conhecimento a partir do corpo, da experiência e da dissidência não é apenas uma escolha teórica, mas um gesto ético-político que desafia os modos tradicionais de pensar a Educação Física, afirmando o corpo não como objeto a ser corrigido, treinado ou normalizado, mas como território de disputa, expressão subjetiva e potência política.

Conclusão

 Políticas de Descontinuidade: Ética e Subversão é uma obra provocadora que desafia o leitor a repensar os fundamentos éticos que orientam a vida social e política. Ao defender a ruptura com normas que perpetuam a exclusão, Thiago Teixeira apresenta a subversão como responsabilidade ética diante da injustiça.

A obra revela-se relevante para pesquisadores das áreas de filosofia, ciências sociais e humanidades, bem como para sujeitos cujas existências são continuamente tensionadas por regimes normativos que decidem quem pode existir plenamente.

Nesse exercício crítico, o corpo atravessado por normas, violências e resistências torna-se também voz que ecoa, recusando o silêncio imposto pelas éticas da continuidade.

 

Referências

____________________

TEIXEIRA, Thiago. Políticas de Descontinuidade: Ética e Subversão. 1. ed. São Paulo: Editora Devires, 2024.

 

Qualificação

____________________

Samuel Oliveira Santos

Graduado em Educação Física pelo Centro Universitário de Patos de Minas (UNIPAM). Mestre em Educação – Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

Compartilhe nas Redes Sociais
Anúncio