Começo utilizando a categoria engrenagem para me referir ao racismo, por considerar, antes de tudo, suas dimensões tecnológicas e estruturais. No que tange à técnica, a raça e, por conseguinte, o racismo operam na fabricação, articulação e disseminação de valores, funcionando como um circuito que impede que sujeitos negros sejam reconhecidos como vidas. Trata-se de uma lógica que sustenta e reproduz uma narrativa e uma memória coloniais que não apenas sequestram a humanidade desses corpos, mas também atuam na garantia, em nome de uma gestão política da branquitude, de sua eliminação.
Nesse sentido, lidamos com uma engrenagem acoplada a máquinas de extermínio que compõem o racismo, bem como a outros sistemas discriminatórios que elegem, de forma reiterada, seus alvos. Essa compreensão do racismo como tecnologia de destruição nos coloca diante de uma segunda categoria: a estrutura.
As reflexões sobre o racismo estrutural não se ocupam de dimensões essenciais ou naturais, o que seria completamente contrário a essa perspectiva, uma vez que visam dessencializar e desnaturalizar dinâmicas de violência. O termo estrutura tem, em sua origem, significados relacionados à organização e à construção. Nesses termos, podemos compreender que o racismo, enquanto sistema ideológico que organiza, simbólica e concretamente, os modos pelos quais pensamos, agimos, reconhecemos e protegemos, ou não, um corpo, manifesta-se como uma forma historicamente forjada a partir do ideal de humanidade atribuído à branquitude.
Pode-se considerar que a construção de uma realidade social que, historicamente, não se responsabiliza pelo tratamento jocoso e pelas demais violências que precarizam a presença de sujeitos negros no Brasil é reflexo de uma estratégia de poder. Assim, ausência, apagamento e impossibilidade de memória não são acidentes, mas formas de regulação política do racismo. Observa-se o funcionamento desse maquinário em diferentes setores da vida social, em múltiplas camadas nas quais corpos racializados são desautorizados com o objetivo de banalizar a violência e naturalizar a letalidade.
Um desses episódios, que refletem esse funcionamento e nos incomodam pelo excesso de agência da branquitude, causando, inclusive, uma espécie de fotofobia, ocorreu no dia 21 de abril, em pleno feriado de Tiradentes, na cidade de Mariana, em Minas Gerais. Na ocasião, alguns turistas consideraram aceitável desrespeitar a memória histórica do sofrimento de pessoas escravizadas que eram torturadas publicamente no Pelourinho da Praça Minas Gerais, no centro da cidade.
Esse episódio de perversidade indica que a memória é um artefato de poder, na medida em que pode, inclusive, negociar se as dores daqueles que nos antecederam, bem como os modos pelos quais essa violência nos atravessa social e subjetivamente, serão respeitados ou não. Enfim, quem tem direito à memória? Não seria estarrecedor, por exemplo, que alguém visitasse um campo de concentração para ridicularizar aquele território e os lastros históricos de perversidade que ele condensa?
A banalização da violência revela as tessituras do racismo estrutural antinegro. No entanto, essa constatação não pode, em hipótese alguma, ser mobilizada como justificativa para blindar, proteger ou desresponsabilizar a cultura, a sociedade ou o sujeito racista que se torna agente da brutalidade. O argumento da estrutura não absolve, pois está distante de qualquer fatalismo ou essencialismo. Ao contrário, evidencia o grau de sofisticação do projeto colonial. E, se foi construído, pode e deve ser destruído por meio de um esforço ético de resistência.



