Ao longo da trajetória do pensamento ocidental, os homens sempre se voltaram para as tentativas de autocompreensão, nas quais nem a forma nem o objeto de conhecimento são idênticos, ainda que a questão que se procura responder seja a mesma: o que é o homem? De todas as questões com as quais o homem se preocupa, nenhuma é maior que a investigação que ele deseja fazer de si mesmo.
No decorrer de toda a história da filosofia ocidental, diversas foram as concepções sobre o homem e, sobre o mundo que os filósofos conceberam. Mas, seja qual for a concepção, ela expressa uma experiência fundamental do homem em seu tempo.
As raízes da concepção do homem que denominamos clássica […], devem ser buscadas sobretudo na cultura grega arcaica que floresce nos séculos VIII e VII a.C. e apresenta uma extraordinária riqueza de manifestações que a cultura clássica (a partir do século VI), recolherá e organizará num universo espiritual coerente e harmonioso […]. Elabora uma imagem do homem na qual são postos em relevo dois traços fundamentais: o homem como animal que fala e discorre (zôon logikón) e o homem como animal político (zôon politikón). Esses dois traços estão, de resto em estreita correlação, pois só enquanto dotado do logos o homem é capaz de entrar em relação consensual com seu semelhante e instituir a comunidade política. (VAZ, 1991, p. 27).
A vida humana exercida por excelência, pela livre submissão ao logos codificado em leis justas segundo a concepção clássica no mundo grego dão lugar na idade média, a concepção cristão-medieval do homem (VI-XV), que procede de duas fontes: a tradição bíblica, vetero e neotestamentária, e a tradição filosófica grega.(VAZ, 1991), o autoconhecimento do homem implica obter o conhecimento de Deus, podemos citar como representantes desse período Santo Agostinho, Boécio, entretanto, segundo Carli (2009), a referida concepção obtém estatuto filosófico, quando efetivamente culmina no esplendor da filosofia de Tomás de Aquino que dará novas interpretações ao homem cristão ao resgatar o racionalismo aristotélico, adequando-o a doutrina cristã. Razão e fé constituem um par indissociável para a antropologia tomista. Segundo Gilson (2007, p.655).
Uma dupla condição domina o desenvolvimento da filosofia tomista: a distinção entre a razão e a fé, e a necessidade de sua concordância. Todo o domínio da filosofia pertence exclusivamente á razão; isso significa que a filosofia deve admitir apenas o que é acessível á luz natural e demonstrável apenas por seus recursos. A teologia baseia-se, ao contrário, na revelação, isto é, afinal de contas na autoridade de Deus.
Ademais, no pensamento de Tomás de Aquino, convergem as grandes teses de acordo com Vaz (1991), da antropologia clássica e da antropologia bíblico-cristã, encontrando seu ponto ideal de equilíbrio.
Palco de uma revolução cientifica sem par na história da humanidade, os tempos modernos instalam uma nova forma de conhecimento: a razão organiza o agir do sujeito no mundo. No lugar das antropologias do homem como um animal político e do homem feito a imagem e semelhança de Deus, a razão, a transformação e a totalidade da vida social são categorias que faziam parte do despertar do homem apresentado pela Renascença, Heller (1982, p. 9), sintetiza assim o conceito de homem;
Com o Renascimento surge um conceito dinâmico do homem. O indivíduo passa a ter sua própria história de desenvolvimento pessoal, tal como a sociedade adquire também a sua história de desenvolvimento. A identidade contraditória do indivíduo e da sociedade surge em todas as categorias fundamentais. A relação entre o indivíduo e a situação torna-se fluída; o passado, o presente e o futuro transformam-se m criações humanas.
Segundo o parecer de Heller, é na Renascença que dão as condições para que surja uma antropologia filosófica no sentido moderno do termo, o problema da unidade e igualdade da natureza humana, a partir da experiência do chamado pluralismo antropológico que, a partir de então ocupará um lugar importante na reflexão sobre o homem. (VAZ,1991).
E, na esteira desta reflexão Pascal segundo Reali; Antiseri, afirma que, a realidade do homem é “prodígio” complexo, enigmático, contraditório, profundo e rico de infinitos aspectos, e, ainda de acordo com o filósofo, o homem, evidentemente é feito para pensar: nisso reside toda a sua dignidade e função, e todo o seu dever consiste em pensar como se deve, e a ordem do pensamento está em começar pelo próprio eu.
Assim, é no pensamento que estão a dignidade e a grandeza do homem. E a grandeza do homem é tão evidente que pode ser deduzida até mesmo da sua miséria […]. Nós não estamos contentes com a vida que temos […] queremos viver uma vida imaginária no conceito dos outros e por isso nos esforçamos por aparecer. Ficamos continuamente estudando como embelezar e conservar o nosso ser imaginário e esquecemos do verdadeiro. […] somos tão presunçosos que gostaríamos de ser conhecidos de toda a terra, como também por todos aqueles que viverão quando não existirmos mais. (REALE;ANTISSERI,1990, p. 618).
Ainda, segundo Pascal a vaidade está arraigada no coração do homem; não somente a vaidade, mas o orgulho também, e a verdadeira condição humana é que o homem é um ser instável e incerto, não é anjo nem fera, e a sua grandeza reside justamente no fato de se reconhecer miserável, as misérias da vida humana estão na base de tudo e, quando os homens percebem isso, optam pela diversão. De acordo com Reali;Antisseri (1990, p.620) “não conseguindo vencer a morte, a miséria e a ignorância decidiram não pensar nelas para tornarem-se felizes. A diversão é uma fuga diante da visão lúcida e consciente da miséria humana, sem ela ficaríamos entediados e esse tédio nos impede de pensar em nós e, a diversão nos distrai, fazendo-nos chegar inadvertidamente à morte.”
A miséria humana e a vaidade do mundo estão aí, aos olhos de todos, então o homem busca a diversão, a distração.
Uma das nuanças mais significativas da vida do homem na contemporaneidade, encontra-se circunscrita a ideia do neoliberalismo1 e, que neste contexto pode ser definido como” o conjunto de discursos, práticas e dispositivos que determinam um novo modo de governo dos homens segundo o princípio universal da concorrência […], que dita certas normas, “empregando técnicas de poder inéditas sobre as condutas e as subjetividades”. (DARDOT; LAVAL, 2016, p.21). Segundo os autores supracitados o neoliberalismo pode ser compreendido como uma nova “razão de mundo” ou, mesmo, como um modo de ser-no-mundo; tendencialmente totalizante, voltado à produção de efeitos em todas as esferas da existência, cujos dispositivos direcionam-se à obtenção de lucro e, aos interesses do mercado.
Ademais, tais normas impõem ao neossujeito viver em um universo de competência e consumo generalizado, cuja existência é permeada pelas escolhas:
Essa lógica que consiste em dirigir indiretamente a conduta é o horizonte das estratégias neoliberais da promoção da ‘liberdade de escolher’. Nem sempre distinguimos a dimensão normativa que necessariamente lhes pertence: ‘a liberdade de escolher ’identifica-se com a obrigação de obedecer a uma conduta maximizadora dentro de um quadro legal, institucional, regulamentar, arquitetural, relacional, que deve ser construído para que o indivíduo escolha ‘com toda liberdade’ o que deve obrigatoriamente escolher para seu próprio interesse. (DARDOT; LAVAL, 2016, p.216).
Tais escolhas se baseiam na proclamação da autonomia de cada um, o que leva o neossujeito a acreditar que vive um intenso período de libertação, ou seja, é livre para escolher2,porém ao vivenciar esta sensação de que escolhe a partir de seus interesses o neoliberalismo possibilita a criação de condições para que o mesmo assuma valores baseados na lógica do mercado3,como por exemplo, da concorrência e ou competição.
Entretanto, a realidade é que os neossujeitos estão cada vez mais propensos às severas, imprevisíveis e imperdoáveis demandas das forças de mercado e, aos tipos de juízos impessoais que, os avaliam em termos de cálculos de custo-benefício dos riscos econômicos, responsabilidade financeira, produtividade, eficiência, conveniência e submetidos aos mais diversos mecanismos de vigilância4 e, consequentemente as escolhas induzidas por mensagens publicitárias e estratégias de marketing facilitadas pelos desenvolvimentos tecnológicos que ampliaram a gama de produtos e canais de difusão da mass media5.
Talvez a experiência de estar no mundo na contemporaneidade esteja marcada por uma espécie de deslocamento constante, pelo imediatismo, nossa atenção tornou-se um território disputado por inúmeras forças; neste contexto a existência passa a ser vista como o resultado das escolhas induzidas, e o neoliberalismo molda os valores assumidos pelo neossujeito para que atenda a lógica do mercado. As tecnologias da informação e da comunicação espalharam para os mais diversos âmbitos da experiência humana e, o neossujeito se vê à mercê de uma realidade virtual, de modo que o virtual se transforma em uma técnica de gestão que visa transformar e vigiá-lo em todos os domínios de sua vida.
Na passagem da modernidade para o que se convencionou chamar pós-modernidade, podemos trazer a reflexão de Merleau-Ponty como uma contribuição ao entendimento do sujeito como ser-no-mundo ou existência. Esse homem, como ser-no-mundo ou existência tem um corpo e no dizer de Merleau-Ponty “corpo-próprio, corpo sujeito, corpo fenomenal” ( Fenomenologia da Percepção. p. 208), pois, é justamente esse corpo enquanto expressão, desejo e intenções que coloca o sujeito em contato com o mundo e com o outro. O corpo é um fenômeno expressivo e, como tal manifesta-se de maneira indireta e direta numa relação de engajamento no mundo. Este corpo fenomênico, também chamado por Merleau-Ponty de “corpo-próprio”, é um corpo que é sujeito de seus atos, que possui uma intencionalidade e que se encontra sempre aberto para o mundo.
Somos seres no mundo enquanto seres de presença – um corpo enquanto corpo vivido e não meramente um conjunto de órgãos “sendo um corpo que se percebe e simultaneamente é percebido, ele deve deixar de ser compreendido apenas como coisa, como objeto. É a partir do corpo-próprio, do corpo vivido que posso estar no mundo em relação com os outros e com as coisas.
Mesmo como um ser que frequenta o mundo, o sujeito na pós-modernidade, sofre, segundo Habermas, uma crise de carência, motivação e sentido. Essa ausência de sentido para alguns autores, entre os quais Gilles Lipovetsky, traduz tendências ao hedonismo, ao narcisismo e ao consumismo.
Ao procurar entender uma concepção de mundo, identificando nela os valores pelos quais o homem vive a sua existência, torna-se necessário refletir sobre esse processo de relações que trava ao longo do tempo, com os outros homens, consigo mesmo, com a natureza e com o mundo em que habita. Essas relações tramadas no existir, expressam um caminho para a compreensão, o que é o homem e o que pensa. E assim se descobre o homem de seu tempo e de sua época.
Notas
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1. O neoliberalismo nasceu como uma reação à forma assumida pelo capitalismo depois da Segunda Guerra Mundial, caracterizada pela presença decisiva do Estado na esfera econômica, enquanto expressão do pacto social-democrata.
[…] entretanto não é o herdeiro natural do primeiro liberalismo, assim como não é seu extravio nem sua traição. […] não se pergunta mais sobre que tipo de limite dar ao governo político, ao mercado, a direitos ou ao cálculo da utilidade, mas, sim, sobre como fazer do mercado tanto o princípio do governo dos homens como do governo de si. Considerando uma racionalidade governamental, e não uma doutrina mais ou menos heteróclita, o neoliberalismo é precisamente o desenvolvimento da lógica do mercado como lógica normativa generalizada, desde o Estado até o mais íntimo da subjetividade. (DARDOT; LAVAL, 2016, p.34).
2. ‘A liberdade da escolha’ é um tema fundamental das normas de condutas dos sujeitos. Parece que é impossível conceber um sujeito que não seja ativo, calculista, á espreita das melhores oportunidades. (DARDOT; LAVAL, 2016, p.223).
3. O mercado é concebido, portanto, como um processo de autoformação do sujeito econômico, um processo subjetivo auto educador e autodisciplinar, pelo qual o indivíduo aprende a se conduzir. (DARDOT; LAVAL, 2016, 141).
4. A desconfiança como princípio e a vigilância avaliativa como método são traços mais característicos da nova arte de governar os homens. ( DARDOT; LAVAL, 2006, p.319).
5. O espaço público é construído cada vez mais pelo modelo do global shopping Center. (DARDOT; LAVAL, 2016, p.304).
Referências
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CARLI, Ranieri. Antropologia filosófica. Curitiba: Ibpex, 2009.
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A Nova Razão do Mundo: Ensaio sobre a sociedadeneoliberal. Trad. Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2016.
GILSON, Étiene. A filosofia na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
HELLER, Agnes. O homem do Renascimento. Lisboa: Editora Presença, 1982.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Trad: Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: volume 2: do humanismo a Kant. 3. ed. São Paulo, SP: Paulus, 1990.
VAZ, Henrique Cláudio de Lima. Antropologia filosófica I. São Paulo: Loyola, 1991.




