Nos últimos dias fomos atravessados por inúmeros casos de violência contra mulheres. As múltiplas formas de violação — da violência sexual à letalidade — revelam que as assimetrias de gênero, enquanto sistema de organização, exclusão e tipificação injuriosa de corpos, são coordenadas estruturalmente pela misoginia, isto é, pelo desprezo, pela hostilidade e pela desqualificação histórica e culturalmente direcionadas às mulheridades.
Ocorre que essas múltiplas violações se produzem no centro das relações de poder, sobretudo ancoradas em uma experiência política fabricada pela masculinidade hegemônica — um sistema simbólico, prático e normativo que associa a ideia de humanidade à masculinidade, à ciseterobrutalidade, à ausência de deficiência e a determinados privilégios de classe e território, por exemplo.
Como escrevi recentemente no artigo “Uma criança não pode ser esposa: é vítima”, a raiva deve ser considerada como uma experiência ética, pois desarticula as naturalizações orquestradas por sistemas de poder que se beneficiam da destruição generalizada de presenças significadas como abjetas. Nesses termos, ao nos depararmos com essas cenas de brutalidade contra mulheridades, é fundamental que todas as pessoas se revoltem contra as violências de gênero operacionalizadas pela misoginia.
Todavia, observamos a fabricação de uma armadilha que, de forma muito sofisticada, embora pareça romper com a moralidade restritiva acionada pela violência de gênero, acaba por lhe dar sustentação: chamar de epidemia aquilo que é politicamente fabricado. Nos jornais, nas redes sociais e em alguns debates públicos, o argumento da “epidemia” aparece com frequência como forma de compreender o lastro generalizado da violência contra as mulheres no Brasil.
O que nos incomoda profundamente é que a categoria “epidemia” seja associada diretamente à ideia de patologia, à ausência de intencionalidade e, por consequência, deslocada do campo da responsabilidade.
Ao chamar de epidemia aquilo que é técnica e politicamente fabricado, o que se faz é servir à lógica da masculinidade hegemônica, que fabrica o inimigo, essencializa assimetrias que são social e politicamente produzidas e, à luz de uma dinâmica política de guerra, sustenta a tese de que esse inimigo deve ser vigiado, contido e exterminado.
Homens não agridem, humilham publicamente e silenciam mulheridades por estarem doentes — aqui, inclusive, nos distanciamos das discussões acerca da “masculinidade tóxica” —, mas por serem forjados em uma lógica estruturalmente comprometida com a desumanização de todas as identidades femininas. Chamar de epidemia aquilo que é construído por dispositivos de brutalidade não torce a norma, não denuncia de fato e tampouco constrói caminhos subversivos, pois sugere que os agressores — e a cultura que lhes oferece segurança e cumplicidade — não podem ser responsabilizados. Todos os esforços éticos no combate às violências de gênero partem de uma ruptura profunda com os sistemas que lhes dão sustentação, inclusive com a linguagem e com seu compromisso com a norma, neste caso pactuada pelas masculinidades hegemônicas.



