Endometriose profunda e o desamparo de trabalhadoras no ambiente de trabalho

Endometriose profunda e o desamparo de trabalhadoras no ambiente de trabalho

endometriose

A endometriose profunda (infiltrante) é uma espécie mais grave da doença, sendo responsável por quadros dor incapacitantes. O manejo terapêutico não constitui recorte desse texto, mas sim, o modo como como as pessoas reagem à enfermidade no ambiente de trabalho. Não é incomum escutarmos:

“A minha prima (ou irmã, amiga) teve essa doença e se curou com o tempo. Hoje ela não sente mais dor.”

“Tive essa doença mas foi bem tranquilo. Não é para tanto. Tem muito mimimi nessa coisa toda.”

“Acho que não dói tudo isso.”

 Não podemos generalizar a incidência da endometriose. É imprescindível o diagnóstico médico que, por meio dos exames adequados, desenvolverá uma compreensão mais precisa acerca das lesões. Comentários dessa natureza são tão irresponsáveis como cruéis porque minimizam o problema e criam a ilusão de solução única e rápida para todos os casos. É a típica positividade tóxica. A sensação é de desamparo.

Ademais, o tempo não cura. É necessário acompanhamento médico para mitigar o impacto da doença sobre a qualidade de vida da paciente (nos planos psicológico, físico, profissional, sexual e social em perspectiva ampliada). O tratamento é multidisciplinar. O NOSSO sofrimento tem muitas camadas.

A mulher acometida de endometriose não é preguiçosa ou antissocial. Segundo Camille Bulle e outros autores:

Aproximadamente um terço das pacientes relata um impacto negativo em suas vidas profissionais, marcado por aumento do absenteísmo e diminuição da concentração. Além disso, essas pacientes têm um risco significativamente maior de depressão, até 1,5 vezes maior do que o da população em geral, com uma prevalência de sintomas de ansiedade e depressão chegando a quase 80% em algumas cohorts (Bulle et al, 2026, p.1)

Significa dizer que lidamos com diferentes sintomas, direta e indiretamente relacionados à endometriose. Em minha experiência com a doença, tiveram momentos que me senti fracassada e culpada por tentar manter o ritmo de trabalho e não conseguir. Entender a complexidade da doença foi fundamental.

A partir dessa tomada de consciência, passei a respeitar os meus limites. Também me esquivei de escutar comentários como os que citei acima, porque além de inservíveis a bons propósitos, causam sofrimento. Atingimos a cota de sofrimento! Ocupemos o nosso tempo com quem importa: NÓS! Cuide-se e se preserve!

 

 Referências

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 BULLE, Camille; RAMANAH, Rajeev; CAROFF, Alicia;  BERDIN,  Aurélie; MOTTET, Nicolas; SCHEFFLER, Florence.Association between patient knowledge and quality of life in endometriosis: A cross-sectional study. European Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology, Volume 321, 2026, 115043.

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