“Um homem, um negro e uma mulher”: o racismo linguístico e a negação da humanidade

“Um homem, um negro e uma mulher”: o racismo linguístico e a negação da humanidade

A apresentadora Marina Franceschini, que estava à frente do programa Estúdio i, da GloboNews, na tentativa de tecer comentários sobre a diversidade na composição da Missão Artemis 2, disse: “um homem, um negro e uma mulher”. Ocorre que o interesse em sinalizar a pluralidade de corpos na corrida espacial deu lugar à evidência de uma estrutura racista, por meio da distinção entre homem e mulher (brancos) e o negro, decodificado, no subtexto, como hierarquicamente inferior aos elementos de comparação que, nesse registro, são mobilizados como sinônimos de humanidade.

É possível considerar que a gramática racial atende aos interesses de pactos que, tácitos ou não, delimitam os espaços de humanidade que, de forma violenta, não podem ser acessados, material e simbolicamente, por todos. Como afirma Frantz Fanon (2020, p. 22), “o negro não é um homem”, pois é posicionado na região do “não ser”. A fala da jornalista traduz o sentido de negação que acompanha a constituição dos valores excludentes de uma civilidade colonial. Afirmar a humanidade associada à brancura é, ao mesmo tempo, indicar que qualquer corporalidade que evada dessa norma é, de forma ostensiva, inumana. A branquitude, enquanto formulação hegemônica de poder, opera no controle da linguagem, reforçando as hierarquias e os processos de exclusão inscritos em uma memória colonial: o corpo negro é a diferença, é a comparação, é a desumanidade.

Gabriel Nascimento (2019) sustenta que a língua não é mera descrição da realidade, mas o meio pelo qual essa mesma realidade é construída. Sendo assim, a veiculação de dinâmicas de violência racial indica que o racismo, enquanto estrutura de poder e de organização do mundo, atua como gestão enunciativa e, mais ainda, que se utiliza das construções discursivas para reiterar os lugares de poder constituídos, fetichizados e reproduzidos pela branquitude. Com frequência, pontuamos que, ao tratar da branquitude, referimo-nos a um sistema de poder que organiza o mundo para manter as periferias do conhecimento, do afeto, dos acessos e da própria humanidade distantes de sujeitos que são qualificados, por sua brancura, como norma.

Ao considerar que é por meio da linguagem que ingressamos no mundo, acessamos as ferramentas de subjetivação e nos inscrevemos na realidade humana, é preciso colocar em xeque os modos pelos quais essa mesma inserção é atravessada por processos discriminatórios, a fim de impedir que corpos precarizados se reconheçam de forma afirmativa, como propõe Grada Kilomba (2019). Tratamos, nesse contexto, de mais do que uma disputa por narrativas: evidenciamos uma disputa inegociável pela humanidade de sujeitos negros.

 

Referências

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FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Sebastião Nascimento. São Paulo: Ubu Editora, 2020.

KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Tradução de Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Editora Cobogó, 2019.

NASCIMENTO, Gabriel. Racismo linguístico: os subterrâneos da linguagem e do racismo. Belo Horizonte: Letramento, 2019.

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