No último dia 3 de julho, Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial, postei um vídeo em minhas redes sociais no qual refletia sobre o caráter de gerenciamento, produção e organização da discriminação. Dimensões que elucidam sua composição técnica e política, isto é: discriminar, antes de separar pessoas e grupos posicionados como subalternizados, significa criar parâmetros por meio dos quais esses corpos serão identificados e marcados, de maneira injuriosa, por sua diferença. Logo, observamos que a discriminação está amplamente distante de qualquer contingência, pois tem como núcleo processos de administração da realidade política, constituindo centros e periferias.
É possível compreender, orientados por Audre Lorde (2020), que o ódio é um dos principais componentes desse processo de gestão. É por meio dele que a diferença é convertida em desigualdade. Segundo a filósofa, grupos hegemônicos se organizam e mobilizam múltiplas estratégias para precarizar presenças políticas compreendidas, à distância da norma, como vidas menos importantes. Essa composição política produz mitos normativos e, a partir deles, expressa-se de forma hostil, hierarquizando grupos sociais com base na categoria politicamente fabricada da humanidade.
Para Lorde, o “ódio é a fúria daqueles que não compartilham os nossos objetivos, e a sua finalidade é a morte e a destruição” (2020, p. 161). Compreendemos, à luz das teses da filósofa, que o ódio, força motriz das violências operacionalizadas por grupos hegemônicos, estrutura-se em uma tríade: a injúria, isto é, a exposição sistêmica de corpos dissidentes por meio de enquadramentos humilhantes; o controle do corpo e da narrativa, mediante o gerenciamento dessas presenças por discursos de perigo, patologização ou desumanização; e, por fim, a execução simbólica, que sustenta a letalização objetiva de corpos posicionados à distância da norma.
Ao compreender as dinâmicas de violência orquestradas por grupos hegemônicos, isto é, sua instrumentalização do ódio como capital de políticas de aniquilamento, Audre Lorde aponta para a necessidade de denunciar e desarticular esses sistemas. Os movimentos disruptivos, nesses termos, só podem ser experienciados pelo incômodo, pela inconformidade diante das tramas de violência produzidas pelo ódio e pela raiva em relação à memória colonial e aos seus efeitos de desumanização na contemporaneidade.
Ao sustentarmos que a experiência ética só pode se realizar como transformação da moral, sobretudo de perspectivas e práticas morais alicerçadas no ódio, na violência, no enfraquecimento do diálogo e no desprezo à diferença, consideramos, a partir das teses de Audre Lorde, que a raiva constitui um caminho ético. Nesse sentido, se a discriminação organiza de forma brutal a realidade política, por vezes com o aporte da moralidade, perspectivas antidiscriminatórias, em razão de seu potencial transformador, encontram sentido na recusa da continuidade moral e na raiva como pressuposto ético.



