O afeto é uma questão política? Análises ético-políticas e decoloniais acerca do sentir

O afeto é uma questão política? Análises ético-políticas e decoloniais acerca do sentir

mãos

É possível inferir que, para além da capacidade de pensar, a possibilidade de sentir também constitui um elemento fundamental da nossa humanidade. É preciso considerar, contudo, que, da mesma forma que a racionalidade se inscreve em uma dinâmica de edição do humano, por meio de processos de desautorização epistêmica e colonial, saberes, memórias e produções que escapam à norma branca, masculina e às demais categorias que historicamente ocuparam o lugar da humanidade são continuamente deslegitimados. Tal movimento reafirma aquilo que Sueli Carneiro denomina epistemicídio: a produção de uma realidade excludente mediante o gerenciamento político dos saberes e das narrativas, constituindo uma verdadeira geografia do pensamento que delimita centros de legitimidade e, simultaneamente, define as suas margens.

Nessa mesma direção, sustentamos que, assim como a humanidade é editada pelas lógicas coloniais que determinam quem pode pensar e de que maneira pode fazê-lo, o sentir também é administrado por hierarquias estruturadas a partir do desprezo pela diferença. Trata-se de uma gestão política dos afetos que estabelece quais sensibilidades são reconhecidas como legítimas e quais são relegadas à invisibilidade, constituindo uma das marcas fundamentais da memória necropolítica.

Recentemente, em uma aula sobre a produção simbólica e midiática da humanidade, questionei quais são as molduras que definem e tornam inteligível uma presença digna de afeto, reconhecimento, amor, proteção e respeitabilidade. A partir das devolutivas dos estudantes, tornou-se evidente que a complexidade dos afetos, isto é, a possibilidade de ser representado como alguém capaz de sentir de maneiras diversas, profundas e contraditórias, permanece vinculada a expectativas normativas ancoradas na branquitude, na ciseterobrutalidade, na ausência de deficiência e em outros marcadores que, de forma discriminatória, informam e conformam nossa percepção do humano.

Desse modo, corpos que escapam a essa normatividade também acessam os afetos, mas não sob o signo da complexidade ou da profundidade. Ao contrário, são frequentemente capturados pela lógica da fragmentação, operacionalizada por meio do estereótipo. Enquanto a corporalidade normativa é apresentada como plenamente capaz de sentir, desejar, sofrer, amar, errar e se transformar, presenças subalternizadas são inseridas em regimes afetivos restritivos, nos quais lhes são atribuídos, de maneira recorrente, lugares associados ao ódio, ao auto-ódio, à ameaça e à violência.

Nesse sentido, tais sujeitos são ensinados a odiar a si mesmos como parte dos mecanismos de reprodução das implicações excludentes da norma. Simultaneamente, são sistematicamente constituídos como corpos-alvo, isto é, como presenças sobre as quais se projetam medos, suspeitas e fantasias de controle. O resultado desse processo é a negação da complexidade afetiva dessas existências, reduzidas a representações parciais que reforçam e legitimam as hierarquias sociais responsáveis por sua subordinação.

Essa distribuição política dos afetos nos interessa, uma vez que a insensibilidade diante da violência direcionada contra corpos precarizados não constitui um acidente, mas um efeito das relações de poder. Relações que, ao despojar corpos dissidentes de sua humanidade, reafirmam o compromisso discriminatório com a exclusão da diferença, alimentando-se, sobretudo, do ódio. Nessa direção, uma reflexão ética, inclusive em registros decoloniais, depende da recalibragem da capacidade de sentir e de ser afetado pelo outro, que, nessa perspectiva, não pode ser inferiorizado.

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