Por vezes, a denúncia sobre as práticas políticas de violência associadas à apropriação cultural é confrontada com argumentos que tomam a interação e a troca como fundamento para supor a impossibilidade de que ela se instale. Contudo, vale a pena examinar, com mais critério e profundidade, esse “argumento”.
Devemos, antes de tudo, considerar que, na trama das relações entre grupos sociais, não partimos de uma realidade recíproca, mas, sim, de uma dinâmica marcadamente assimétrica. A raça e, por consequência, o racismo, instalam uma trama de desigualdades simbólicas e materiais que organizam, de forma discriminatória, a realidade. Assim, como podemos falar de reciprocidade entre culturas, troca ou hibridização quando, na verdade, sistemas hegemônicos, como a branquitude, por exemplo, se dedicam a sequestrar, depurar, comercializar e desumanizar elementos das culturas afrodiaspóricas, a fim de demarcar seu poder?
O racismo, como uma tecnologia multiarticulada de destruição, atua na neutralização da vida e instaura, assim, o que Achille Mbembe denomina necropolítica, isto é, uma gestão política que opera, de forma ostensiva, na transformação do outro em alvo e, nesse sentido, na produção da morte. Trata-se de uma experiência de terror que neutraliza a possibilidade de que sujeitos racializados se reconheçam e sejam reconhecidos nos limites da humanidade, do cuidado, da dignidade e da preservação. Nesses termos, se é no campo da cultura que temos acesso às ferramentas de subjetivação e de socialização, a branquitude, enquanto sistema de poder, ao esvaziar, destruir e se apropriar das produções culturais negras, incorre em um processo genocida, nos termos de Abdias Nascimento.
Sendo assim, a apropriação cultural nasce de uma lógica política de usurpação de elementos que informam a identidade e a humanidade de grupos subalternizados, uma vez que suas produções são interessantes, desde que seus corpos não estejam presentes. Logo, a denúncia dessa prática de violação não mira as práticas individuais, isto é, não está interessada no que os sujeitos fazem de forma isolada, mas, como nos ensina Rodney William, busca compreender a apropriação cultural a partir das relações de poder. Nesse sentido, importa compreender como as estruturas sociais, institucionais, econômicas e estéticas operam na usurpação de elementos das culturas afrodiaspóricas e, de forma hostil, subtraem desses grupos a possibilidade de afirmar sua identidade, sua história e sua resistência. Desse modo, a apropriação cultural é uma engrenagem do racismo que, como sabemos, tem como componente constitutivo o aniquilamento daqueles que denunciam a perversidade moral da branquitude.



