Imposto ocioso, retorno perdido: o erro estratégico de ignorar o mercado cultural

Imposto ocioso, retorno perdido: o erro estratégico de ignorar o mercado cultural

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Os números da indústria cultural no Brasil são assustadores e revelam um cenário de extrema prosperidade. Atualmente, o setor cultural representa mais de 3,1% do PIB Nacional. Para se ter uma dimensão do impacto econômico e social dessa engrenagem, um estudo recente da Fundação Getulio Vargas (FGV) apontou que apenas a Lei Rouanet movimentou cerca de R$ 25,7 bilhões na economia brasileira em 2024, sendo responsável pela geração e manutenção de mais de 228 mil postos de trabalho.

Ao compararmos com outros gigantes históricos, a realidade surpreende ainda mais: o setor audiovisual, sozinho, gera uma força de trabalho que é mais de 50% maior do que a da indústria automotiva no país. E as projeções do mercado indicam que a indústria cultural deve movimentar cerca de R$ 207 bilhões até 2026. Desde a quantidade de pessoas beneficiadas, a proteção às tradições, até a forte movimentação financeira no turismo e no mercado de trabalho, a cultura no Brasil é sinônima absoluta de prosperidade.

Mesmo com esse impacto gigantesco, este é um mercado que possui um espaço formidável para crescimento, especialmente nas margens pouco exploradas das leis de incentivo por pessoas físicas e empresas de todos os portes. Existe uma imensa lacuna de recursos que deixam de ser captados ciclo após ciclo. Para ilustrar, em um levantamento recente sobre o incentivo fiscal, notou-se um potencial não utilizado de R$ 1,59 bilhão que deixou de ser destinado para a cultura.

Além disso, de um universo de cerca de 275 mil empresas brasileiras tributadas no regime de lucro real, apenas 2,3% utilizaram a Lei Rouanet no ano de 2025. Há, portanto, muito espaço para captação através de leis de incentivo estaduais, municipais e federais, mas poucas pessoas e organizações parecem saber disso.

Para as empresas que decidem investir na cultura, o retorno volta em ganhos reais de marca, aspectos sociais e valores corporativos. Na modalidade de patrocínio, a empresa atrela a sua imagem ao projeto selecionado, beneficiando-se de estratégias de comunicação e retorno de visibilidade. A grande vantagem dessa dinâmica é que o “investimento” não custa nada a mais para o caixa da corporação, uma vez que o recurso é captado de impostos já devidos e apurados, respeitando o limite legal que, no caso das pessoas jurídicas, é de 4% do imposto devido.

Apesar de todas as vantagens evidentes, ainda há uma grande dificuldade em colocar os projetos culturais em contato com os investidores. Excelentes iniciativas acabam não tendo captação por falharem na comunicação de seu valor agregado. Produtores, muitas vezes, não conseguem traduzir a força de suas propostas para a linguagem do mundo corporativo, falhando em demonstrar às organizações como e por que aquele investimento lhes seria vantajoso.

O reflexo imediato disso é a manutenção dessa margem enorme de captações possíveis ociosas no mecanismo. Esta é, sem dúvida, a maior perda do processo: muitos projetos morrem no papel pela falta de uma comunicação eficaz que convença o setor privado a apoiá-los. Existem também fatores indiretos que influenciam propostas a serem (ou não) aprovadas e patrocinadas, afinal, falamos de uma sociedade enviesada, onde preconceitos históricos com a área cultural e a concentração de recursos em grandes organizações ainda ditam muitas das regras do jogo.

Há, mais do que nunca, a necessidade da difusão desse conhecimento, como conscientizar o empresariado sobre o impacto econômico, social e de marca que os incentivos fiscais podem gerar. Ao mesmo tempo, devemos munir os proponentes com informações técnicas,  seja por meio de consultorias ou da leitura atenta de materiais como o Guia Oficial da Lei Rouanet no Brasil,  para que projetos culturais diversos consigam se comunicar com o mercado, garantindo o apoio necessário para fazer essa roda girar com toda a potência que ela possui.

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