A IA Não Rouba Empregos: Ela Escolhe Quem Pode Ser Descartado

A IA Não Rouba Empregos: Ela Escolhe Quem Pode Ser Descartado

IA (AI) robo

A Inteligência Artificial tem demonstrado um poder de transformação mercadológica e processual avassalador, reconfigurando uma parcela significativa do mercado corporativo. A promessa do amplo uso da IA para substituir processos e otimizar cadeias produtivas é vivida em todas as esferas da sociedade, gerando lucros exorbitantes para as organizações. No entanto, é notório que a máxima “a IA veio para substituir seu emprego” tantas vezes repetida em tom cômico ou como estratégia de marketing agressiva, mascara uma realidade perversa que deve ser levada a sério pelas empresas e pelo poder público.

Uma pergunta central e extremamente incômoda fica no ar: quem são as pessoas cujos postos operacionais estão sendo substituídos e descontinuados sumariamente? A resposta nos leva diretamente à base da pirâmide, na intersecção de raça e classe. O avanço tecnológico caminha, paradoxalmente, lado a lado com o aprofundamento de desigualdades históricas.

Em uma sociedade hegemonicamente dominada pela cisheteronorma e pautada por uma visão cruel e capitalista do lucro sobre o corpo, o descarte desses profissionais reflete a continuidade de uma integração estruturalmente precária, onde as velhas hierarquias de marginalização são camufladas pelo brilho da inovação técnica.

O impacto avassalador dessa adoção impensada da IA não é um fenômeno isolado; ele se soma, de forma dramática, ao que já compreendemos sobre a exclusão digital no contexto da globalização capitalista. A verdadeira exclusão digital transcende a mera falta de acesso a um computador ou a um plano de dados. Ela se consolida na incapacidade imposta aos sujeitos de pensar, criar e organizar novas e justas formas de produção e de distribuição da riqueza simbólica e material. A exigência brutal de que todos os processos passem invariavelmente pela IA opera sob racionalidades tecnicistas que reduzem a participação humana ativa, enfraquecendo a autonomia e o letramento crítico da classe trabalhadora.

Para a população preta, parda e periférica, essa imposição tecnológica converte-se no que se estuda hoje como necroalgoritmização. Trata-se de um processo letal e silencioso onde a vida humana é reduzida a meras métricas de dados. Sistemas automatizados, desenhados pelos centros de poder, são usados para aniquilar a agência social dos indivíduos, confinando-os a uma condição de “mortos-vivos” no ambiente digital.

Os algoritmos, desprovidos de qualquer neutralidade, automatizam o racismo e decidem quem é útil ao sistema e quem deve ser sumariamente descartado. E as consequências transbordam as telas e alcançam o plano material. A centralização do poder tem se acentuado de maneira assustadora nas mãos de poucos conglomerados globais, trazendo consigo um impacto territorial devastador. A manutenção de imensos datacenters, necessários para processar o volume massivo da IA, consome recursos físicos alarmantes, como água e energia em grande escala.

Historicamente, é a população negra, pobre e periférica a primeira a absorver e sofrer com os danos dessa precarização ambiental. A tecnologia atua, assim, em uma dupla frente de destruição: como expropriadora de empregos e como força extrativista de recursos vitais.

Diante desse cenário distópico, urge a necessidade de uma ampla discussão sobre o real impacto da IA na vida dos trabalhadores, independente da lógica cega do lucro a qualquer custo. É preciso confrontar essa nova integração perversa através do fortalecimento de uma consciência auto-eco-política, recolocando a dimensão humana, ética e ambiental no centro do debate sobre desenvolvimento.

Essa responsabilidade recai, necessariamente, sobre os setores públicos e as grandes organizações, que precisam ser cobradas. Uma visão profundamente humana sobre a aplicação da IA precisa ser exigida, pois uma inclusão digital que não seja emancipatória, participativa e significativa é, na prática, apenas a sofisticação da exclusão.

Retomamos, então, à pergunta central que ecoa e incomoda: o que acontecerá com as pessoas situadas na intersecção de raça e classe cujos postos operacionais estão sendo descontinuados sumariamente? Se não houver uma guinada ética e política por parte do Estado e das corporações, o destino será o agravamento brutal da miséria e da marginalização.

As novas tecnologias da informação e da comunicação tendem a ampliar o padrão de exclusão social já vigente no capitalismo. Em um país estruturalmente fraturado como o Brasil, os indicadores de exclusão digital reproduzem, muitas vezes em escala ampliada, a nossa velha exclusão social.

O desafio imposto pela IA nos obriga a entender que a verdadeira exclusão digital não é apenas ficar sem um computador ou internet, mas sim sermos mantidos incapazes de pensar, de criar e de organizar novas formas, mais justas e dinâmicas, de produção e distribuição de riqueza material e simbólica. Sem essa tomada de consciência, a automação não será o símbolo do nosso avanço, mas apenas o motor mais cruel e eficiente das nossas antigas desigualdades.

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