Entre a rapidez e a eficiência: a advocacia não é fast food

Entre a rapidez e a eficiência: a advocacia não é fast food

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Há algum tempo, penso sobre a velocidade. Não apenas a velocidade das respostas, dos processos ou das decisões judiciais, mas a velocidade que passou a ser exigida de tudo e de todos.

Queremos a mensagem respondida imediatamente, o orçamento em poucos minutos, a solução pronta, o resultado previsível. Nas redes sociais, tudo parece caber em alguns segundos: uma dúvida, uma resposta; um problema, uma solução; uma história complexa, uma conclusão.

E, aos poucos, essa lógica também chegou à advocacia. Hoje, muitas vezes, o primeiro contato de uma pessoa com um advogado começa com três perguntas: quanto custa, quanto tempo demora e o que pode ser feito.

São perguntas absolutamente legítimas. O problema começa quando passa-se a acreditar que, para serem boas, as respostas precisam necessariamente ser rápidas.

Mas a advocacia não é fast food, que oferece rapidez, qualidade questionável e preço barato. E talvez essa seja uma afirmação especialmente importante quando falamos de Direito de Família. Não é conquistar o cliente o mais rápido possível, e focar em assinar o contrato de honorários

A família não vem pronta para ser enquadrada em um formulário, não existe uma receita única para um divórcio, uma guarda e convivência, fixar alimentos, um inventário ou uma disputa patrimonial.

Cada família chega ao escritório carregando uma história, e histórias precisam ser ouvidas antes de serem transformadas em honorários e estratégias jurídicas.

E quando se trata da advocacia especializada é preciso pensar quase como um trabalho artesanal. Há algo de artesanal no ato de ouvir cuidadosamente o que não foi dito na primeira frase.

De perceber uma informação aparentemente pequena em meio a dezenas de documentos; fazer uma pergunta que muda a compreensão de todo o caso. Identificar um risco que o cliente ainda não havia percebido.

Encontrar, entre caminhos juridicamente possíveis, aquele que melhor se ajusta à realidade daquela pessoa. Não é simplesmente aplicar uma fórmula. É construir, e construir leva tempo.

Isso não significa, evidentemente, que o advogado possa ser lento, desorganizado ou indiferente.

O cliente tem direito a retorno, à informação e a saber quais são os próximos passos e, principalmente, a ser tratado com respeito desde o primeiro contato, que acontece na consulta.

Há situações em que a rapidez é indispensável. Quando existe violência, risco, urgência, ameaça a um direito ou necessidade imediata de proteção, não há espaço para transformar a cautela em desculpa para a inércia.

Mas existe uma diferença importante entre agir rapidamente e responder superficialmente. E talvez seja justamente aí que esteja uma das grandes questões da advocacia contemporânea.

As redes sociais trouxeram inúmeras possibilidades para a profissão. Aproximaram advogados e sociedade, democratizaram informação, permitiram que temas jurídicos chegassem a pessoas que antes sequer sabiam onde buscar orientação.

Mas também criaram uma espécie de vitrine permanente. E, em uma vitrine, muitas vezes vence aquilo que chama mais atenção.

A resposta mais rápida. O vídeo mais curto. A promessa mais certeira. Os honorários mais baixos. O profissional que responde primeiro.

O problema é que Direito não funciona assim, ou, pelo menos, não deveria funcionar. Mas a própria advocacia, em alguns momentos, passou a alimentar essa lógica.

Transformamos conhecimento jurídico em produto de prateleira. Simplificamos questões complexas para caber em um vídeo. Disputamos clientes pela velocidade do atendimento e, algumas vezes, pela redução dos honorários a valores que sequer correspondem à responsabilidade e ao trabalho envolvidos.

E então acontece algo curioso. A mesma advocacia que promete rapidez, certeza e facilidade acaba sendo cobrada quando a realidade jurídica se mostra lenta, complexa e imprevisível.

A solução prometida não vem. O processo demora. A decisão não corresponde à expectativa. O acordo não é homologado como se imaginava. O juiz decide de maneira diferente. A outra parte apresenta uma resistência que ninguém havia explicado.

E aquilo que parecia tão simples na tela do celular revela, no processo, todas as suas complexidades. É nesse momento que talvez precisemos voltar algumas casas.

Não para abandonar a tecnologia. Não para desprezar as redes sociais. E muito menos para aceitar uma advocacia distante, inacessível ou desatenta.

Mas para lembrar que velocidade não é sinônimo de eficiência. Às vezes, a resposta mais eficiente é a que demora um pouco mais porque foi cuidadosamente pensada.

Às vezes, a melhor orientação é aquela que começa com: “Preciso analisar os documentos” ou “Antes de lhe responder, preciso entender melhor o que aconteceu.”

Ou, ainda: “Essa solução que você deseja não é juridicamente segura; vamos pensar em outra possibilidade.”

Talvez não sejam as frases mais sedutoras para quem procura uma resposta imediata. Mas são, muitas vezes, as mais responsáveis; porque o advogado não trabalha apenas com aquilo que o cliente gostaria de ouvir, trabalha também com aquilo que o cliente precisa saber. Pelo menos assim deveria.

E isso faz toda a diferença, que no Direito de Família é ainda maior, porque estamos lidando com vínculos que continuarão existindo depois do processo.

O ex-casal que se divorcia continuará sendo pai e mãe, os irmãos continuarão sendo irmãos depois do inventário e as crianças continuarão precisando dos dois adultos mesmo depois de uma disputa judicial.

Uma decisão pode encerrar um processo, mas quase sempre encerra uma relação, por isso, em determinadas situações, uma estratégia aparentemente vencedora pode produzir consequências que só aparecerão muito tempo depois.

É preciso olhar além do processo, da petição, da decisão e daquilo que parece ser o resultado imediato. Talvez seja esse um dos grandes valores da advocacia especializada: compreender que cada caso exige uma medida própria.

Não existe uma solução de prateleira para a vida das pessoas, e talvez devêssemos ter um pouco mais de coragem para dizer isso. Coragem para não competir apenas pela velocidade. Coragem para não transformar honorários em uma guerra de preços.

Coragem para não prometer aquilo que não podemos garantir. Coragem para explicar que determinado caso exige estudo, documentos, estratégia e tempo.

E coragem, também, para reconhecer que o cliente não está errado ao desejar agilidade, ele está procurando alguém que resolva um problema que, muitas vezes, já lhe trouxe sofrimento suficiente.

Cabe ao advogado encontrar o equilíbrio, ser acessível sem ser superficial. Ser ágil sem ser precipitado, ser disponível sem transformar o escritório em uma central de respostas instantâneas. Ser técnico sem esquecer que, do outro lado da mesa, existe uma pessoa.

No fim, talvez a pergunta não seja se devemos escolher entre rapidez e eficiência.

A verdadeira questão, talvez, é saber quando a rapidez é necessária e quando a pressa pode nos afastar da melhor solução.

Porque há problemas que precisam de uma resposta hoje, mas há outros que precisam de uma resposta pensada. E reconhecer essa diferença também é exercer a advocacia.

Em tempos de soluções instantâneas, talvez ainda exista valor em dizer: “Espere. Vamos olhar isso com cuidado”

Porque algumas coisas podem ser feitas rapidamente, mas algumas coisas, especialmente quando envolvem pessoas, relações e famílias, precisam ser feitas da maneira certa. E, para isso, às vezes, é preciso tempo.

Entre a rapidez e a eficiência, talvez, a boa advocacia esteja justamente na capacidade de saber a diferença.

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