Para nós, que compreendemos a importância de Sankofa, isto é, do retorno ao passado, à memória e à ancestralidade, o tempo também opera como um campo de disputa, não apenas das narrativas, mas da própria categoria de humanidade. Olhar para o passado implica reconhecer que políticas hegemônicas se nutrem, sobretudo, da subalternização das diferenças, da gestão das desigualdades e da precarização intencional de determinados grupos, visando à manutenção de lugares de privilégio material e imaterial para corpos que se outorgam a si mesmos a condição de dignos, humanos e detentores de direitos, no interior de um pacto excludente e violento. Recordar, nesse sentido, torna-se um mecanismo fundamental para evitar a repetição dos mesmos erros, especialmente no processo de ruptura com poderes que, de forma sofisticada, produziram a brutalização de pessoas negras e de outros sujeitos atingidos pela moral restritiva (Teixeira, 2023), bem como uma injustiça normalizada pela circulação de violências estruturais e estruturantes.
Ao impedir que a história de grupos subalternizados seja vocalizada, políticas discriminatórias organizam e enquadram a realidade, não apenas determinando quem é reconhecido como humano, mas também quais humanidades têm o direito de falar sobre si. Nesse processo, instala-se uma lógica de vilania sustentada pela normalização da barbárie. Afinal, uma vida destituída de importância, no interior das relações de poder, torna-se facilmente matável, sem que isso constranja seu algoz. As políticas de execução têm, portanto, como condição de possibilidade, a produção de vidas cuja eliminação pode ser apresentada como necessária, legítima ou mesmo indiferente. A execução, nesse sentido, não se reduz ao ato de matar, mas integra uma racionalidade política que, antes de eliminar corpos, produz as condições para que determinadas vidas sejam percebidas como elimináveis.
Ocultar e normalizar práticas de violação sustentadas pelo racismo, pela ciseterobrutalidade, pela misoginia e por outros sistemas de opressão e violação, técnico-politicamente constituídos para aviltar corpos dissidentes, atesta uma prática de poder que se manifesta pelo apagamento da dor como condição de sua continuidade. Quando a dor é deslegitimada, silenciada ou tornada socialmente irrelevante, a violência encontra condições para sua reprodução, ao mesmo tempo em que aqueles que a sofrem são afastados dos regimes de reconhecimento que poderiam interpelar e desestabilizar tais práticas.
Diante disso, podemos nos perguntar: qual futuro é possível diante das políticas de morte? Destruir a memória significa, ao mesmo tempo, impedir que mobilizações, alianças e coalizões se constituam na contramão desses poderes destrutivos, que operam pela essencialização dos efeitos que eles próprios produzem nas relações assimétricas de poder. O futuro, nesse sentido, torna-se possível quando olhamos para o passado sem cair na armadilha construída por aqueles que, a partir de si mesmos e de seus parâmetros excludentes e brutais, reivindicam para si o direito de narrar a história e, ao mesmo tempo, se beneficiam das ausências impostas por sua moralidade perversa.
Nesse cenário, isto é, em um contexto de refundação de uma realidade democrática, antidiscriminatória e comprometida com a dignidade de todas as humanidades, e não apenas com um registro limitado dos humanismos discriminatórios, é fundamental honrarmos as pessoas que nos antecederam na evasão das margens em direção ao centro. Honrá-las significa reconhecer que as possibilidades de existência e de resistência que hoje reivindicamos não surgiram espontaneamente, mas foram forjadas por aqueles que, diante de estruturas de violência, produziram deslocamentos, alianças e formas de resistência capazes de desafiar os limites impostos à própria condição de humanidade.
Referências
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TEIXEIRA, Thiago. Inflexões éticas. 2. ed. São Paulo: Devires, 2023.




