No último dia 23, participei da segunda edição do Papo de Homem, uma iniciativa do Movimento Prosperidade Afro, em Belo Horizonte. Essa articulação tem como propósito fortalecer iniciativas, trabalhos e projetos de mulheres negras. Nessa direção, pensando na importância de discutir, no interior das tensões entre raça e gênero, Karina Célia — idealizadora do movimento — propôs o Papo de Homem como um momento de discussão, análise, crítica e reconfiguração coletiva das masculinidades, à distância do pacto de proteção hegemônico e mais afinado com o diálogo, sobretudo e fundamentalmente, com as mulheridades.
Aceitei o convite por considerar que só é mesmo possível pensar outros caminhos para as masculinidades à luz das críticas históricas e políticas dos corpos que foram sequestrados de sua agência em nome da hegemonia masculina, da branquitude, da ciseterobrutalidade e de demais sistemas que, de forma entrecortada, produzem rivalidades sistêmicas em relação à diferença. Durante minha fala, mencionei que os afetos são mediados pelas normas sociais e que estas delimitam quais corpos podem ou não experimentar a complexidade do sentir. Sendo assim, postulei que: “o afeto informa a humanidade. Discutir o afeto no interior das masculinidades é destruir as formas que estreitam nossas possibilidades de sentir enquanto homens, sobretudo enquanto homens negros.”
Estava motivado pelas teses de bell hooks em Tudo sobre o amor. Desse modo, minha intenção era indicar que as normas de raça, gênero e sexualidade, por exemplo, atuam como marcadores políticos que emolduram o afeto, isto é, que deixam explícitos quais corpos merecem e representam o amor, o cuidado, a complexidade e a possibilidade de sentir, em detrimento daqueles que têm, em nome da distância dessa centralidade normativa, sua possibilidade de sentir completamente fraturada.
Desse modo, é possível considerar como as masculinidades negras são sistematicamente representadas por meio da violência ou pela suposta incapacidade de acessar experiências afetivas que evadam o ódio, o auto-ódio e a rivalidade. Esses enquadramentos atendem às narrativas da branquitude, uma vez que reduzem a complexidade das existências negras a repertórios afetivos limitados, reiterando uma memória colonial que depende da simplificação desses sujeitos para garantir sua continuidade.
Essa impossibilidade de sentir, ou, mais precisamente, a fragmentação no campo dos afetos, revela as dinâmicas produzidas pela intersecção entre masculinidade hegemônica, branquitude e ciseteronormatividade. Há um corpo que pode representar, experimentar e expressar publicamente a pluralidade dos afetos. Em oposição, existem aqueles que acessam apenas o vestígio e a injúria e que, como efeito dessa destruição simbólica, são impedidos de ocupar outros registros afetivos para além do ódio, da violência ou da hipersexualização. Trata-se de uma distribuição desigual da humanidade, na qual alguns corpos são autorizados a sentir em sua complexidade, enquanto outros são reduzidos a repertórios afetivos previamente definidos pela ordem racial, colonial e ciseteronormativa.
Ouvi com atenção, como alguém que acredita na potência ética de Sankofa, as histórias do Seu Turíbio dos Santos, marceneiro aposentado e compositor, que, com toda a sua trajetória de vida, pontuava como teve que se construir enquanto homem, consumindo e se emoldurando pela dureza, na impossibilidade da fragilidade e na distância do diálogo. Nos seus termos, o destino de um homem, em específico, no seu caso, de um homem negro, foi apresentado de forma correspondente à força. Todavia, ao narrar a importância de sua esposa e de suas filhas, deixou entrever espaço para outras vivências, sobretudo aquelas que desviam da dureza imposta pelos modelos normativos. Ele afirma que conseguiu compreender, através da presença, das posições e das críticas da esposa e das filhas, algo que, segundo ele, “a maioria dos homens não faz”: “enxergar as mulheres como indivíduos”.
Seu Turíbio, que caminha há décadas, ensinou algo a todos aqueles homens, em sua pluralidade, presentes no evento: não é possível discutir criticamente as masculinidades à distância das mulheridades. Somo a essa posição a importância, também, de dialogar com as masculinidades subalternizadas.
O caminho do sentir, nas teses de Seu Turíbio, passa necessariamente por ser afetado pelo outro, por essa presença que nos desestabiliza ao constranger as posições seguras, inclusive aquelas que foram cristalizadas pela violência e pela impossibilidade. Enquanto a raça e o racismo nos ensinam que sentir é uma contradição em relação às masculinidades, as perspectivas éticas, sobretudo aquelas que se pautam na afirmação da diferença, indicam que reivindicar o afeto, os múltiplos afetos, é um ato revolucionário.



